12 Airbus A319

Se voltarmos à normalidade, teremos desperdiçado uma boa crise.

Empresa Cidadã / 20:19 - 14 de abr de 2020

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Imagine uma tragédia, daquelas hollywoodianas, 12 aviões Airbus A319 acidentados, em um intervalo de 30 dias. Desde o primeiro óbito, ocorrido em 16 de março, em São Paulo (SP), conforme anúncio pelo médico infectologista David Uip e pelo secretário de Saúde do Estado de São Paulo, médico José Henrique Germann Ferreira, o número de mortos, no Brasil, até agora, pela Covid-19 equivale à capacidade média de transporte de passageiros correspondente a 12 aviões Airbus A319. (Enquanto redigia a coluna, este número foi atualizado duas vezes. Começou com 10 aviões). Quem acha que a mobilização contra a doença é “histeria”, não sabe o que os números dizem. O que a vida diz.

 

Alpargatas produz e doa EPIs

Roberto Funari, presidente da Alpargatas, anunciou publicamente uma prioridade incomum em empresas, participar do controle da pandemia da Covid-19. Ele quer ser lembrado quando tudo passar. Juntar-se, quem sabe, a um grupo de industriais brasileiros que podem ser lembrados por contribuições à formação do nosso país e por procedimentos éticos, como os irmãos Vilares, como Claudio Bardela, como Einar Kock, como Kurt Mirov, como Antonio Ermírio de Moraes, como Jones Santos Neves e como Oswaldo Vieira Marques, alguns dos quais tive a oportunidade de conhecer pessoalmente e até de desfrutar da amizade.

A Alpargatas pretende produzir e doar 100 mil pares de sandálias Havaianas para pessoal que trabalha com limpeza pública em cidades beneficiadas pela ação do Instituto Alpargatas. Funari também aposta o seu prestígio na formação de uma rede de colaboradores, em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte e em Brasília, pensando em distribuir 100 mil kits, incluindo álcool gel, sabonete e alimentos, visando a travessia do período mais hostil da pandemia. Além disso, a Alpargatas converteu máquinas na Paraíba, com o objetivo de fabricar EPIs para doação ao pessoal da saúde (200 mil máscaras, no horizonte de quatro a seissemanas; jalecos, em parceria com o Senai local; aventais e sapatilhas descartáveis).

Ademais, serão produzidos 18 mil pares de calçados para doação ao pessoal da área hospitalar pública de Minas Gerais, Pernambuco e Paraíba, estados onde há fábricas da empresa.

Funari fez uma carreira internacional e tem experiência de trabalho em outros momentos em que pandemias golpearam as economias de outros países e que por isso tornou-se adepto de ações colaborativas e coordenadas entre empresas e governos para a volta à normalidade.

Ocorre, no entanto, que normalidade é número de vezes em que um fenômeno se repete numa série observada sistematicamente. Ou seja, “normal” é o que se repete, não o que é natural ou desejável (diria o estagiário bom de decoreba que “normal é o maior segmento de reta compreendido entre o círculo e a secante”). Ou seja, é apenas uma medida.

Tão importante quanto as doações nestas ações colaborativas e coordenadas, ou mais, será o que deverá ser aprendido (e desaprendido) no mundo pós-pandemia, pós-quebradeira, no mundo “pós-normal”. Se voltarmos à normalidade, teremos desperdiçado uma boa crise.

 

#fiqueemcasa

 

Paulo Márcio de Mello é professor servidor público aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br

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