2022 e a brasilidade em foco

Por Ranulfo Vidigal.

Bossa Nova e a ilusão de um modelo desenvolvimentista imaginado

 

Dois lançamentos cinematográficos brasileiros chegaram nesse início de ano mostrando a forte tradição cultural de nosso país. Me refiro aos filmes sobre a vida artística da cantora Nara Leão e o especial sobre o genial compositor e instrumentista Pixinguinha – dois ícones da música popular brasileira. Somos um País de ricas e vivas tradições.

A meninada de classe média carioca do movimento musical da Bossa Nova imaginava mudar a música, o País e o mundo, mas não chegou nem de longe em sua meta, embora a metamorfose de Nara – moradora de Copacabana, em frente ao mar – ao encontrar o autor maranhense João do Vale e o Brasil profundo nos revelam a contradição entre a ilusão de um momento desenvolvimentista imaginado e sua completa incapacidade de superar o enorme nível de desigualdade de renda e patrimônio entre o andar de cima do edifício social brasileiro e o enorme contingente de deserdados do progresso material, que ocupa o exército industrial/excedente de reserva de 40 milhões do tempo presente.

A temporada eleitoral começa com o marketing político dos pré-candidatos tentando injetar esperança e expectativas positivas nos eleitores brasileiros. Já estes estão assustados com a crise econômica, com a inflação e com a falta de oportunidades produtivas que assolam a juventude brasileira e, no fundo da alma, pouco acreditam que o futuro resultado eleitoral venha, de fato, mudar sensivelmente suas vidas. Saúde/pandemia e desemprego perseguem o cotidiano da maioria da população hoje.

Nesse contexto, me vem à mente a figura do engenheiro Leonel Brizola, que faria este mês 100 anos de vida, e para quem, em países com má distribuição da renda, um partido que pretenda representar os trabalhadores deve ter como prioridade aumentar a participação dos salários na renda nacional. A meta tem que ser melhorar a distribuição funcional da renda entre lucros, de um lado, e salários, de outro e enfrentar com altivez o conflito distributivo. Um partido que lute por quem vende o seu trabalho para viver não deve objetivar apenas a manter os direitos da parte mais fraca da relação de emprego. Tem a obrigação de buscar ampliar direitos e fortalecer a representação dos trabalhadores.

Toda corrosão de salários pela inflação, como enfrentamos hoje, piora a distribuição funcional da renda. Assim, é ficar na contramão ser um partido/candidato que defenda os trabalhadores aceitar esta carestia generalizada. E mais, melhorar a distribuição é a meta prioritária. Mantê-la concentrada é derrota. Piorá-la é inaceitável.

Desse modo, preservar a qualidade dos serviços públicos, universais e gratuitos, é obrigação mínima para qualquer partido progressista. Deixar que essa qualidade deteriore é fracasso. Eliminar serviços públicos para entregá-los a preço de banana para o setor privado é inconcebível.

O desafio é conciliar essa agenda prioritária com a mais uma tentativa de colaboração de classes que domina a agenda parlamentar e eleitoral na rica e desigual nação brasileira.

 

Ranulfo Vidigal é economista.

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