As incertezas globais voltaram a frear decisões no Brasil, mas o que a história recente mostra é que as empresas que param completamente correm o risco de perder o momento da retomada. Os resultados desses dois primeiros meses de 2026 acenderam um alerta silencioso na classe empresarial. Em diferentes setores, executivos relatam que o desempenho do período só não foi mais fraco do que os meses que antecederam a pandemia de Covid-19. Nesse contexto, a governança corporativa ganha protagonismo em meio às incertezas de 2026, com decisões, liderança e pessoas no centro da estratégia empresarial.
Diante de um cenário internacional instável, marcado por tensões geopolíticas e incertezas econômicas, muitas empresas reagiram da mesma forma: frearam investimentos, reduziram gastos e interromperam contratações. A pergunta que começa a circular nos bastidores do mercado é inevitável: estamos vivendo um novo “2020 emocional”? E, se a retomada vier com a mesma intensidade após aquele choque inicial, as empresas estarão preparadas para responder com a velocidade necessária?
Se, por um lado, já sabemos lidar com nossas incertezas internas — inclusive em anos de Copa do Mundo e eleição —, o que abalou o mercado de contratações neste início de ano não foi o conhecido, mas o fantasma das incertezas globais, que, evidentemente, podem se refletir por aqui. Sem clareza sobre um possível estado de guerra e sobre os indicadores econômicos decorrentes dos conflitos em andamento, muitas empresas optaram por cortar gastos e suspender contratações.
É uma reação compreensível, mas talvez não a mais sensata. Em 2020, também iniciamos o ano com resultados fracos, antecipando a crise provocada pela pandemia de Covid-19. No entanto, o período terminou aquecido, e muitas empresas foram pegas de surpresa, precisando correr para reorganizar seus times e dar conta do boom que sucedeu o caos. Tanto que, em 2021 e 2022, vimos um mercado de contratações inflacionado, com empresas enfrentando dificuldades para reter seus melhores talentos.
Para além dessa conjuntura global, é fundamental considerar os aprendizados dos últimos cinco anos — especialmente com a revolução impulsionada pelas inteligências artificiais, seja ainda em estágio mais abstrato ou já plenamente aplicada, a depender do setor. Durante muito tempo, temas como liderança, cultura organizacional e governança corporativa foram tratados como secundários na estratégia empresarial. Em 2026, essa separação já não faz sentido. O que se observa é uma mudança estrutural: decisões, pessoas e conselhos passaram a ocupar o centro da competitividade das empresas.
A tecnologia avança e pressiona, enquanto as pessoas se transformam. Crescer continua sendo prioridade, mas agora exige estrutura, clareza nas decisões e capacidade real de adaptação.
Nesse contexto, três dimensões passaram a se cruzar de forma inevitável dentro das empresas: liderança executiva, atuação dos conselhos e gestão de pessoas. Quando essas forças não caminham alinhadas, a estratégia perde direção.
Em 2026, líderes não são avaliados apenas pelos resultados que entregam, mas pela forma como os constroem. Isso ajuda a explicar o aumento da rotatividade em cargos de alta liderança: muitas mudanças não estão ligadas à competência técnica, mas à inadequação entre perfil, momento da empresa e desafios do negócio.
Mesmo com o avanço da inteligência artificial e da automação, o fator humano segue sendo o principal ponto de atenção — e também de potência — dentro das companhias. Pessoas precisam saber lidar com pessoas. E, sim, as soft skills continuam no centro desse movimento.
Vivemos tempos nebulosos. Mas e se a retomada chegar antes do esperado e seus times estiverem enxutos e sobrecarregados? Quem vai sacudir a poeira e retomar o crescimento? Será que o pessimismo não está impedindo a identificação de gestores estratégicos, capazes de impulsionar a empresa nesse novo ciclo? E será que equipes reduzidas, acumulando funções, não correm mais risco de deixar escapar oportunidades que surgem justamente em meio à crise? Vale a reflexão.
O ano de 2026 consolida uma mensagem clara: não existe estratégia sustentável sem pessoas preparadas, decisões bem fundamentadas e governança ativa. Quando o desenho das novas lideranças e da transformação econômica global se tornar mais nítido, as empresas que terão vantagem não serão as que esperaram, mas as que se prepararam. Porque, em ciclos de incerteza, o maior risco raramente está em agir cedo demais, mas em perceber tarde demais que o sinal já ficou verde.
Marcelo Arone é CEO da OPTME e especialista em liderança e governança corporativa.

















