31 de março de 1964

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Rio de Janeiro, 31 de março de 1964 (Foto: Arquivo Nacional)

Na reta final de março de 1964, o golpe já estava em marcha. Não começou no dia 31de março. Apenas se consumou ali. O comício da Central do Brasil e o discurso no Automóvel Clube marcaram a ruptura definitiva entre o governo constitucional de João Goulart e a cúpula militar que conspirava abertamente contra ele.

Jango já havia perdido o comando efetivo de tropas decisivas em Minas Gerais e no antigo Estado da Guanabara. O governador mineiro Magalhães Pinto e o líder conservador Carlos Lacerda atuavam em sintonia com oficiais golpistas. O general Olímpio Mourão Filho antecipou o movimento e colocou suas tropas na estrada rumo ao Rio de Janeiro, detonando a insurreição antes mesmo do cronograma original.

No Sul, a situação era distinta. Havia forças legalistas ainda fiéis a Jango e a Leonel Brizola – as mesmas que haviam sustentado a Campanha da Legalidade em 1961.

Brizola defendia reação imediata. Tropas gaúchas poderiam marchar para restabelecer a autoridade  constitucional. Mas o cenário já ultrapassava as fronteiras nacionais. Os Estados Unidos haviam acionado a Operação Brother Sam. Uma força naval com porta-aviões, destróieres, petroleiros e armamentos deslocava-se para a costa brasileira para apoiar os insurgentes caso houvesse resistência.

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O recado era inequívoco: qualquer tentativa de contra-golpe enfrentaria não apenas militares brasileiros, mas também o peso da Guerra Fria. O embaixador americano Lincoln Gordon atuava como elo político e logístico dessa operação, em contato permanente com os conspiradores.

Diante desse quadro, Jango fez uma escolha dramática. Recusou-se a ordenar um confronto armado entre brasileiros, ainda mais sob a ameaça de intervenção estrangeira. Deixou Brasília e seguiu para Porto Alegre e, depois, para São Borja, onde Brizola tentava organizar a resistência. Esperava-se a repetição da Legalidade, mas desta vez o apoio militar não se consolidou.

Generais hesitaram, comandos dividiram-se e a correlação de forças virou rapidamente. Para profunda frustração de Brizola, não houve reação. Como deputado federal, sua capacidade política era insuficiente sem respaldo das Forças Armadas. Em Brasília, entre o dia primeiro de abril e o início da madrugada de 2 de abril de 1964, o Congresso declarou vaga a Presidência sob a alegação de que o chefe de Estado havia abandonado o país – mesmo ele permanecendo em território nacional.

Criou-se uma ficção jurídica para legitimar o novo regime. João Goulart, o estancieiro gaúcho, decidiu não comprar a guerra. Não foi falta de coragem, mas decisão política para evitar uma guerra civil de consequências imprevisíveis.

O preço foi alto. O país mergulhou em uma ditadura que duraria 21 anos. Décadas depois, a pergunta recorrente é por que Jango não resistiu. Pouco se pergunta sobre quantos mortos teria custado essa resistência. 

A crise de 1964 não foi apenas doméstica. Foi um episódio da Guerra Fria no Hemisfério Sul, com interesses estratégicos globais em jogo. Naquele março, o Brasil não escolheu apenas um novo regime. Escolheu evitar a guerra. Mas, também, abriu mão da democracia.

Henrique Pinheiro – Economista e produtor executivo do documentário Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária

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