4,25 e ponto final

Frustrou o mercado, mas não há nada de errado nisso.

O corte na taxa básica de juros (Selic) para 4,25% ao ano parece ter frustrado as expectativas do mercado. Principalmente pela sinalização de que a redução deve ser a última a ser promovida pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom).

O cenário básico trabalhado pelo Bacen é de que, apesar da incerteza trazida por fatores como o coronavírus, o cenário externo indica a continuidade do processo de recuperação gradual da economia brasileira e dos emergentes em geral. Além do mais, a perspectiva é de que a política monetária acomodatícia deve permanecer nas principais economias mundiais.

Mas, mesmo com a melhoria da atividade econômica estimada pelo Copom, a tendência é de que a inflação se mantenha sob controle. “O Comitê avalia que diversas medidas de inflação subjacente encontram-se em níveis compatíveis com o cumprimento da meta para a inflação no horizonte relevante para a política monetária”, diz o comunicado do Bacen. Para 2020, a estimativa do boletim Focus é de uma inflação medida pelo IPCA ao redor de 3,4%. Já a projeção do próprio Copom, que leva em consideração o dólar R$ 4,25, encontra-se em 3,5% para este ano.

O mais importante do comunicado do Bacen é a indicação de que 4,25% é o piso e que, para o próximo ano, haja uma reversão da tendência de queda da Selic para novas altas dos juros. O cenário híbrido descrito ressalta que a trajetória de juros é de encerrar nos atuais 4,25% e se elevar para 6,0% em 2021.

O risco da manutenção de juros tão baixos está na perda da sintonia fina do Copom. Na verdade, cada corte de juros demora a ser sentido na economia cerca de seis meses e, portanto, há risco de que a redução da Selic possa ter ido longe demais e contaminar a inflação futura. Por outro lado, sabe-se que a indústria ainda demonstra um elevado índice de ociosidade e a renda da população está bem aquém do que poderia, o que contém o consumo.

Estes fatores mantêm a inflação baixa, como mostram os últimos dados do IBGE. O IPCA de janeiro foi de 0,21%, após alta de 1,15% em dezembro. Esta foi a menor inflação para o primeiro mês do ano desde o início do Plano Real, em junho de 1994. Em janeiro de 2019, a taxa havia ficado em 0,32 por cento. Nos últimos 12 meses, o IPCA registrou uma inflação de 4,19%, pouco acima dos 4% definidos como meta para 2020 pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), mas a tendência é de arrefecimento.

Mesmo assim, como um bom conservador, o que faz parte de seu papel, o Bacen precisa observar todos os riscos. E, junto com o cenário de juros baixos, a política monetária também é afetada pela transformação digital no setor financeiro. Neste sentido, não se pode esquecer as consequências do surgimento das fintechs, que elevam a bancarização da população brasileira e também ao maior acesso ao crédito e crédito mais barato. Isso por si só tem impacto no consumo e, por fim, pressiona os preços.

Sim. Até agora o remédio é uma política monetária mais solta. Mesmo porque o PIB ainda patina, e é preciso estimular a retomada da economia. Os cortes, entretanto, parecem ter chegado ao limite. Ao menos, é preciso parar para avaliar suas consequências na economia na famosa sintonia fina.

A cautela agora é a garantia de que não haverá sobressaltos amanhã. Esta foi a principal mensagem do Copom. “Considerando os efeitos defasados do ciclo de afrouxamento iniciado em julho de 2019, o Comitê vê como adequada a interrupção do processo de flexibilização monetária. O Comitê enfatiza que seus próximos passos continuarão dependendo da evolução da atividade econômica, do balanço de riscos e das projeções e expectativas de inflação, com peso crescente para o ano-calendário de 2021”, diz o comunicado. Frustrou o mercado, mas não há nada de errado nisso.

Ana Borges
Colunista.

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