A África ao sul do Saara

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Ferrovia Mombasa-Nairobi construída pela China no Quênia (foto de Dong Jianghui, Xinhua)
Ferrovia Mombasa-Nairobi construída pela China no Quênia (foto de Dong Jianghui, Xinhua)

Ferrovia Mombasa-Nairobi, construída pela China no Quênia

 

Perplexidade sobre o estranho silêncio da Comunidade Europeia

 

Hoje, a África, ao sul do Saara, está repleta de visitas importantes: o Papa, os ministros das Relações Exteriores da República Popular da China e da Federação Russa, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, sem mencionar algumas das personalidades mais prestigiadas. A União Europeia (UE) parece ausente. Quase. Ainda que, no Sahel e na África Central, as tropas dos Estados europeus colaborem, com os exércitos dos Estados africanos, contra o extremismo e o terrorismo islâmico.

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Importa fazer uma reflexão que se distinga daquelas, por mais banais que sejam, que surgem nos dias de hoje e que associam as relações da África, a sul do Saara, com a China e a Rússia a um ressurgimento do anticolonialismo.

Giuseppe Pennisi, diplomata italiano, diretor da Divisão de Projetos de Educação do Escritório Regional da África Oriental, que ocupou vários cargos importantes no Banco Mundial para Reconstrução e Desenvolvimento, expressou, em recente artigo na revista italiana Formiche.net, sua opinião sobre a falta de presença da União Europeia nas iniciativas internacionais, que têm como objetivo políticas para África.

“Acho que conheço bem a África ao sul do Saara – disse – por causa dos anos em que trabalhei, inicialmente, no Banco Mundial, e depois, na FAO. Eu também tive uma residência secundária em Nairóbi até a década de 1970. O presidente do Banco Africano de Desenvolvimento pediu-me para liderar a equipe responsável pela reorganização da instituição.”

E prosseguiu: “Em suma, parece-me que a UE está a deixar escapar uma oportunidade: há mais de 70 anos mantém relações de ‘associação’ com todos os Estados da zona, escritórios no local não só para as relações diplomáticas, mas para a eficácia do financiamento europeu, que se soma à cooperação bilateral. E, no entanto, é extraordinariamente silencioso.”

Pennisi lembrou o que aconteceu no continente africano após a Segunda Guerra Mundial e a necessidade de resolver a questão do que fazer com as colônias pertencentes aos vários Estados europeus. Para tentar resolver o problema, foi convocada, em 1952, a assembleia consultiva do Conselho da Europa, que deu origem ao chamado Plano de Estrasburgo, que preconizava uma nova entidade, a chamada Euráfrica, em que os dois continentes estavam intimamente ligados.

Posteriormente, durante a conferência de Messina, de 1955, convocada para a constituição da Comunidade Econômica Europeia (CEE), a França colocou o problema do que fazer com a África ao sul do Sara, onde se iniciava um processo de descolonização (o que aconteceu, em grande parte, na década de 1960). A solução foi encontrada, no Tratado de Roma, através da definição de um conjunto de acordos de associação que previam a criação de zonas paralelas de comércio livre entre os novos Estados africanos e a CEE, contemplando, também, a ajuda comunitária (através do Fundo Europeu de Desenvolvimento).

No entanto, apenas alguns Estados romperam o cordão umbilical com os países que haviam sido potências coloniais. A União Soviética (URSS) e a República Popular da China (RPC) tentaram, então, tornar-se parceiros privilegiados desses “dissidentes”, mas sem obter grande sucesso, devido, também, às enormes dificuldades de comunicação. Além do mais, eles ofereceram pacotes de ajuda previamente embalados, destacando-se campos esportivos e estádios.

Em 1970, porém, algo novo aconteceu, nomeadamente a construção de uma linha férrea de 2 mil quilômetros, concluída cinco anos depois, denominada Ferrovia TanZam, que ligava Dar el Salam, capital e principal porto da Tanzânia, a Kapiri Mposhia, no centro da assim dita Copperbelt, no Zâmbia. A importância desta ferrovia devia-se ao fato de poder transportar o cobre zambiano sem utilizar o porto de São Felipe de Benguela, em Angola, então ainda colônia portuguesa.

Nos últimos 50 anos, assistimos a várias fases. Houve fases em que alguns Estados africanos se aproximaram da URSS. De sua parte, a República Popular da China, RPC, tornou-se muito mais ativa desde o lançamento da Belt and Road Initiative. As relações entre os Estados africanos ao sul do Saara e a URSS e a RPC nunca foram idílicas; a principal razão deve-se ao fato de muitos projetos de investimento (quase sempre concebidos na Rússia ou na China) terem muitas vezes deixado a desejar, mas também devido aos empréstimos onerosos da Belt and Road Initiative, com o consequente elevado endividamento com o RPC.

Em conclusão, surgem perplexidades sobre o estranho silêncio da Comunidade Europeia, provavelmente porque não há um verdadeiro governo central e tudo é deixado para os Estados individuais. Alguns deles querem manter o status quo, para defender seus interesses econômicos, como a França, que, com sua moeda CFA, manteve a centralização das reservas cambiais dos Estados da África Ocidental no Tesouro francês.

Hoje, a CFA foi transformado em ECO, mantendo a paridade fixa com o euro. Esta transformação do CFA em ECO deveu-se ao fato de vários países acusarem Paris de alimentar fluxos migratórios, empobrecendo assim a África, e, ainda por cima, evocarem a necessidade de sanções, por parte da UE, contra os países que, ainda hoje, praticam políticas coloniais.

 

Edoardo Pacelli é jornalista, ex-diretor de pesquisa do CNR (Itália), editor da revista Italiamiga e vice-presidente do Ideus.

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