Dois livros que fazem refletir sobre esse período no País
Platão já dizia que os “livros dão alma ao universo, asas para a mente, voo para a imaginação e vida a tudo”. E, obviamente, do alto da sua genialidade, ele estava absolutamente correto. Afinal, como pregava Monteiro Lobato, “um país se faz com homens e livros”. Só é lamentável que o Brasil hoje viva um período tão sombrio, inebriado por um manto obscuro, sem valorização da cultura, da educação, da leitura – fundamental ao desenvolvimento de qualquer povo, de toda e qualquer Nação.
Mesmo assim, livros continuam sendo editados, para a felicidade dos que buscam o prazer por meio da boa literatura, pois, afinal, “o homem que não lê bons livros não tem nenhuma vantagem sobre o homem que não sabe ler”, frase de Mark Twain. E assim, dentre os vários que são lançados dia após dia, Cabala e a arte de apreciação do afeto, do rabino Nilton Bonder, e Corrupção no Brasil, um ciclo repetitivo, da promotora de justiça Maria Fernanda Dias Mergulhão, chegaram às livrarias, possibilitando ao leitor apreciar duas obras, com temáticas tão diversas, mas que trazem boas narrativas e impressionam pela qualidade das reflexões que proporcionam.
Dentre tantos e tão importantes pensamentos, Mário Quintana refletia que “os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não leem” e ainda afirmava que “o livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado”. E o livro é de fato uma bela companhia. Sempre.
Rabino da Congregação Judaica do Brasil, Nilton Bonder se destacou mundo afora como um dos maiores intérpretes literários da antiga sabedoria judaica e um ativo defensor e promotor do ecumenismo religioso. Membro da Academia Carioca de Letras, Bonder já publicou mais de duas dezenas de livros, dentre os quais, Exercícios da alma, Portais secretos, A cabala da comida e A alma imoral, que deu origem a filme e peça homônimos.
A intenção da obra Cabala e a arte de apreciação do afeto é apontar as diferenças entre existir e viver. De acordo com o autor, existir é função de tempo e espaço, ou seja, de preenchimento de espaço por um tempo certo; viver, por sua vez, representa a função e o impacto da existência; a influência que algo exerce sobre o mundo. Um ocupa, o outro afeta. Esses conceitos são basilares e possibilitam uma descoberta contraintuitiva, a de que o viver precede o existir.
Dramaturgo aclamado com o espetáculo Cura, da Companhia de Dança Deborah Colker, Bonder constrói, em seu novo livro, o conceito do “afeto”, que será aquilo que põe a realidade em andamento, apesar de o “existir” definir qualitativamente o que ocupa e o que desocupa, ou o que expande e contrai, cabendo ao afeto estabelecer quantitativamente o impacto que as existências exercem uma sobre as outras. Como ele bem escreve, “o afeto produz o tempo que cria a realidade de tudo aquilo que existe no universo afetivo. Até então as coisas eram, elas apenas faziam parte da verdade primordial, a qual era destituída da função”.
Com profundidade e lucidez, Bonder trata em sua narrativa sobre a cabala, apreciando o desejo, a percepção, a motivação e o vínculo. Os afetos, para o autor, são os nitsotsot, as fagulhas-partículas de intenções que abarcam toda a matéria. Invisível aos olhos, o viver, enfatiza ele, estimula, sensibiliza e, sem última instância, organiza a realidade.
A própria consciência nada mais é do que um receptor de afetos, cuja função é, segundo Bonder, apresentá-los diferentemente da mera constelação de existências. “O afeto tem a potência de gerar sentidos e propósitos”. De forma brilhante, Bonder, nas 141 páginas desse seu último lançamento, cria reflexões das mais interessantes e instigantes sobre a importância do afeto, desmistificando o encantamento que o existir exerce sobre todos nós, buscando desenvolver uma apreciação sobre o afeto, esse elemento tão fundamental e etéreo do mundo. “sem o afeto, sem o viver, não há como se aproximar daquilo que é real”.
Para John Ruskin, “os livros podem ser divididos em dois grupos: aqueles do momento e aqueles de sempre.” Cabala e a arte de apreciação do afeto é, sem dúvida, um livro para ser lido e guardado para sempre, tamanha a sua dimensão em tratar sobre tema tão rico e tão belo e tão prazeroso.
“Apenas deveríamos ler os livros que nos picam e que nos mordem. Se o livro que lemos não nos desperta como um murro no crânio, para que lê-lo?”. Esse pensamento de Franz Kafka me remete à obra Corrupção no Brasil, um ciclo repetitivo, de autoria de Maria Fernanda Dias Mergulhão. Em boa hora, é lançado e justamente em um momento, mais um, em que a corrupção assombra o Brasil, lá, aqui e acolá, em escândalos sucessivos.
Doutora e mestra em Direito, mestra em Sociologia Política, promotora de Justiça do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro e professora universitária, a autora escreve que a corrupção passou a ser tema de interesse de todas as classes sociais e ganhou espaço em todos os canais de publicidade no Brasil. Analisar sua origem e sua historicidade é, segundo ela, de extrema importância para compreender essa mazela da sociedade, instalada nos meandros dos poderes. Surgem questões inerentes à identidade e cultura do povo.
A partir do marco civilizatório do Brasil, no período colonial, a miscigenação de raças e etnias, e por consequência, a mistura de culturas distintas, associada à colonização de exploração e o longo período de escravidão, são fatores relevantes na proposta de identificar a origem da corrupção.
Maria Fernanda, em sua obra, narra que, já no período colonial, era possível constatar a tolerância, e mesmo conivência, da população frente aos desmandos e irresponsabilidades dos representantes públicos, “afinal não havia a concepção de representatividade popular ou da res ser pública. A República e os ideais democráticos eram realidades muito distantes e tratava-se de um Brasil ainda em formação.”
Para ela, é um equívoco atribuir ao denominado “patrimonialismo” a causa da corrupção brasileira. No Brasil Império e no Brasil Monárquico, já existiam atos de corrupção tipificados pelas respectivas Ordenações como “crimes de lesa majestade”.
O conceito de corrupção atribuído atualmente não é o mesmo verificado no período colonial. A forma de Estado e a forma de governo, república e sistema presidencialista, a cidadania em evolução, e o grande impacto provocado pela tecnologia nas relações sociais são fatores, de acordo com Maria Fernanda, que impõe adotar uma análise ontológica da expressão “corrupção”.
Os reflexos produzidos pela corrupção, a exemplo do Índice de Desenvolvimento Econômico, que tem por base indicadores de qualidade da saúde e da renda da população; do abismo que se apresenta a desigualdade no Brasil; a imagem negativa perante o globo face a 109ª posição do Brasil como um dos países mais corruptos do mundo, segundo a Transparência Internacional, produzindo insegurança a investidores internacionais e refletindo diretamente na economia de produção e na economia de mercado, faz com que as autoridades constituídas tenham de se esforçar e mudar radicalmente esse cenário.
Há vários instrumentos que auxiliam a compreensão dos nefastos efeitos da corrupção. Leis mais rígidas quanto à tipificação de condutas e punições têm seu peso e importância, mas longe estão de serem os principais ou únicos. A autora conclama a que todos conheçam a realidade brasileira, letrados e iletrados, por meio de campanhas televisivas, das novelas, contos, crônicas e filmes, que inegavelmente têm um poder multiplicador porque ingressam de forma dinâmica e rápida na cultura do povo.
O ciclo repetitivo da corrupção se rompe, acredita Maria Fernanda, não através de outras gerações de brasileiros, mas por meio desta geração, do momento atual.
Parodiando Castro Alves, “bendito aquele que semeia livros e faz o povo pensar”, Nilton Bonder e Maria Fernanda Mergulhão farão certamente o leitor semear bons livros e refletir mais sobre a arte de apreciar o afeto e entender que uma boa educação de base é de grande importância para a pretendida quebra do ciclo repetitivo da corrupção, mas o delegar para o amanhã é atitude tão cômoda quanto afirmar que esse país “não tem jeito”.
Como diz Martha Medeiros, “de todos os que preenchem nossa solidão, são os livros os mais anárquicos, os mais instigantes. Leia, e seu silêncio ganhará voz.” Leiamos, pois e sempre. Para Paulo Freire, “é preciso que a leitura seja um ato de amor.”
Paulo Alonso, jornalista, é reitor da Universidade Santa Úrsula.
















