A boa evolução dos vinhos com rolhas screw cap

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Rolhas de cortiça e vinhos com rolha screw cap (foto de Míriam Aguiar)
Rolhas de cortiça e vinhos com rolha screw cap (foto de Míriam Aguiar)

A rolha de cortiça criou uma conexão muito forte com o imaginário do vinho; não só faz parte do ritual de abertura das garrafas, como é muito prestigiada esteticamente para os ambientes gastronômicos. Talvez hoje este seja um dos importantes focos de sua permanência no mercado, não apenas, mas certamente um fator a ser considerado pelos produtores de vinhos, já que boa parte dos consumidores criou certo “fetiche” pela rolha de cortiça, associando-a à estética e qualidade dos vinhos.

No entanto, tenho me surpreendido com a qualidade dos vinhos que tenho degustado da Austrália e Nova Zelândia recentemente, onde há uma presença majoritária de vinhos vedados com as tampas de roscas metálicas, também chamadas de screw crap. O aumento da utilização dessas rolhas tem mostrado que ela se apresenta como uma das opções mais consistentes de alternativa ao uso das rolhas de cortiça.

A resistência à entrada dessas rolhas metálicas no mercado se pauta justamente por elas se contraporem àquilo que sustenta o poder das rolhas de cortiça, mas, por outro lado, apresentam vantagens que podem justificar uma mudança paulatina, que vai se sustentando ao longo do tempo, como ocorreu nos países da Oceania.

Falemos, primeiro, dos aspectos que envolvem a utilização da rolha de cortiça. Com origem restrita, a produção da rolha de cortiça natural se dá nos países da península ibérica, especialmente em Portugal. Sua matéria-prima se origina das cascas das árvores do sobreiro, um carvalho da família Quercus suber, com longevidade de cerca de 150 anos.

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A extração da casca que dá origem à cortiça é permitida após 25 anos de idade e renovável a cada 9 anos. Sendo assim, trata-se de uma prática sustentável, mas com um fator limitador quanto à sua origem, que impacta o seu valor. Isso vem inspirando pesquisas e produções de materiais substitutos ao longo do tempo, especialmente por parte de produções menos ligadas à tradição.

Um fator questionável do uso da cortiça e claramente negativo é a sua relação com a geração de um composto químico volátil que afeta a qualidade do vinho e, infelizmente, não é tão raro assim. O TCA – Tricloroanisol – é um composto resultante da reação do cloro (presente em produtos químicos utilizados para a higienização das rolhas) com substâncias orgânicas do carvalho.
Vinho Neudorf, da Nova Zelândia (foto de Míriam Aguiar)
Vinho Neudorf, da Nova Zelândia (foto de Míriam Aguiar)

A presença desse composto no vinho pode resultar no chamado “gosto de rolha” – um defeito que descaracteriza os aromas de frutas e frescor do vinho, em prol de um cheiro de mofo ou de papelão molhado. Seis nanogramas de TCA por litro (ng/l) podem arruinar um vinho. Infelizmente, as estatísticas desse defeito são altas. Chega-se a dizer que a cada 30 garrafas, uma estaria infectada pelo TCA, só que, em estado inicial, é menos perceptível.

Mas qual seria a vantagem que ainda sustenta a presença da rolha de cortiça, para além do aspecto simbólico? A rolha de cortiça permite uma micro-oxigenação no vinho, importante para a sua evolução, especialmente para vinhos tintos mais tânicos, com vocação de guarda. Sendo assim, cada vez mais, tem-se optado pela alternativa da rolha screw cap para vinhos brancos, rosés e tintos jovens, que não teriam esse perfil de guarda.

Essas rolhas, pelo contrário, envolvem excelente vedação, baixo riscos sanitários, apesar de ainda desprezadas pelo consumidor. O risco aqui seria a falta de oxigenação, que poderia criar um ambiente muito redutivo (falta de oxigênio), desaconselhável a vinhos de guarda.

Mas há muita controvérsia ainda nessas visões, provavelmente provocada pelos interesses econômicos em jogo. Nos países da Oceania, há uma forte defesa das tampas metálicas e pesquisas voltadas ao desenvolvimento de perfis adaptados a vinhos de guarda. Do outro lado, a indústria das rolhas de cortiça busca elevar a eficácia desse produto, diminuindo as suas possibilidades de contaminação.

O que eu posso afirmar, com base empírica, é que tenho me surpreendido com a boa evolução dos vinhos da Nova Zelândia, haja vista que ali se faz vinhos delicados, aparentemente só aptos ao consumo jovem, mas que, talvez com a segurança proporcionada pelas rolhas metálicas, têm chegado a idades longevas absolutamente preservados em vivacidade e qualidade.

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