A China, Marx e o socialismo do século 21: por que nenhum país faz revolução com receita pronta?

Marx e Engels afirmam que medidas revolucionárias ‘serão diferentes em diferentes países’. O caso do socialismo na China. Por Alonso Barros

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Bandeira da China na praça Tian'anmen
Bandeira da China na praça Tian'anmen (foto de Chen Zhonghao, Xinhua)

Nos debates contemporâneos sobre economia e geopolítica, poucas questões suscitam tanto embaraço intelectual quanto a tentativa de definir o que, afinal, é a China. Seria um capitalismo autoritário? Um socialismo disfarçado? Um híbrido improvável? Ou um experimento histórico que desafia as categorias clássicas?

A confusão aumenta quando lembramos que, no Ocidente, o debate costuma ser refém de rótulos prontos, que não dão conta da complexidade do país que hoje responde por uma das maiores economias do mundo.

Mas há um ponto essencial que raramente entra nessa discussão — um ponto que está justamente no coração do pensamento de Marx e que, de certo modo, antecipa a própria experiência chinesa: as revoluções não seguem roteiros universais. Elas obedecem a leis gerais, sim, mas cada trajetória se molda às condições históricas específicas de cada sociedade.

Esse princípio está explicitamente registrado no Manifesto Comunista, quando Marx e Engels afirmam que as medidas revolucionárias “serão diferentes em diferentes países”. A frase, curta e objetiva, desmonta qualquer tentativa de imaginar um socialismo padronizado (fechado num modelo), replicável como um manual técnico.

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A história real, para Marx, sempre se impõe; e as revoluções não brotam de dogmas, mas das possibilidades concretas criadas pelas próprias contradições sociais de cada formação econômica. Vale destacar que Marx era um materialista histórico dialético. A China, portanto, jamais poderia repetir 1917, assim como Cuba jamais poderia repetir a China. Cada país, com sua estrutura de classes, seu nível de desenvolvimento, suas tradições políticas, seu lugar no sistema mundial, suas particularidades e peculiaridades, inevitavelmente cria seu próprio caminho.

É justamente nessa chave interpretativa que Elias Jabbour, um dos principais estudiosos da China no mundo, sugere entender o fenômeno contemporâneo chinês. Em seu livro China: o Socialismo do Século XXI, escrito com Alberto Gabriele, Jabbour argumenta que o país vive a construção de uma nova formação econômico-social — algo inédito na história e impossível de capturar com categorias como “capitalismo de Estado” ou “economia mista”.

Ele propõe que a China desenvolve um “socialismo de mercado”, no qual o Estado mantém hegemonia estratégica sobre a economia ao mesmo tempo em que utiliza instrumentos de mercado como ferramentas de desenvolvimento. E vai além: sustenta que a China ingressa em uma nova etapa histórica, que ele denomina “economia do projetamento”, caracterizada por planejamento estatal sofisticado, coordenação de longo prazo e uso intensivo de tecnologia para orientar investimentos nacionais.

Essa interpretação tem pontos fortes inegáveis. Primeiro, recoloca o marxismo dentro do debate sobre o presente, e não apenas sobre o passado. Ao mostrar como o planejamento estatal chinês coordena setores estratégicos — energia, infraestrutura, telecomunicações, tecnologia e sistema financeiro —, Jabbour destaca que o país conseguiu criar mecanismos de direção econômica que não se limitam ao velho modelo soviético, rígido e excessivamente centralizado.

Ao mesmo tempo, evita um erro comum no Ocidente: tratar a China como mero capitalismo autoritário, ignorando o papel central do Partido Comunista na definição das prioridades nacionais, no controle político sobre conglomerados privados e na disciplina da própria burguesia chinesa.

Nenhum analista sério pode ignorar que, na China, o capital privado opera sob vigilância permanente do Estado, diferentemente do que ocorre nos países capitalistas liberais do Ocidente, onde a burguesia comanda a política. Na China, o capital cresce, mas não governa. Essa inversão é central para entender por que o país não cabe nos rótulos tradicionais. Na China, o capital é uma concessão dada pelo governo chinês, que detém o poder político e econômico do país.

China não segue cartilha tradicional do capitalismo ocidental nem do socialismo soviético

Mas o argumento de Jabbour também encontra críticas importantes. Muitos estudiosos questionam se a China realmente desenvolve um modelo socialista ou se estaria apenas adaptando mecanismos capitalistas sob um Estado forte.

Há quem diga que Jabbour subestima as desigualdades profundas que crescem desde as reformas dos anos 1980, bem como a formação de uma burguesia poderosa. Outros argumentam que a ideia de “economia do projetamento” ainda carece de comprovação empírica: seria uma fase histórica consolidada ou apenas um momento conjuntural do desenvolvimento chinês?

O debate é complexo e exigirá décadas de observação, mas sua riqueza reside justamente no fato de que nenhum dos lados consegue impor uma narrativa definitiva — o que evidencia que estamos diante de um fenômeno histórico ainda em curso e diferente de tudo o que já se viu.

O ponto que interessa — e que deveria orientar o debate público — é que a China não segue a cartilha tradicional nem do capitalismo ocidental nem do socialismo soviético. Suas escolhas refletem as particularidades de sua própria formação social.

Enquanto a revolução russa nasceu de um proletariado urbano, altamente concentrado, e gerou um Estado extremamente centralizado, a revolução chinesa foi essencialmente camponesa, dispersa, com raízes profundas no campo e em uma sociedade milenar marcada pelo confucionismo e pela autoridade estatal como elemento cultural.

Essas diferenças ajudam a explicar por que o socialismo chinês, ao contrário do soviético, apostou em uma convivência mais flexível entre mercado e planejamento, em vez de tentar abolir rapidamente todas as formas mercantis.

Cuba, por sua vez, trilhou outro caminho. Pequena, bloqueada e dependente, adotou um modelo centralizado, mas focado em direitos sociais e mobilização popular. Nenhum desses casos segue um modelo universal. Todos confirmam a ideia marxiana de que o processo revolucionário é histórico, não escolar; concreto, não dogmático. Portanto, a realidade concreta é quem determina o que é possível.

Socialismo na China se desenvolve conforme a advertência de Marx

A China de hoje, portanto, pode ser vista como um híbrido organizado, no qual elementos do mercado funcionam dentro de um arcabouço político estatal. Sua economia tem empresas privadas gigantes, mas também conglomerados estatais que controlam setores estratégicos. O sistema financeiro é quase inteiramente público, e a política industrial é comandada pelo Partido Comunista.

Inovações tecnológicas não são deixadas ao sabor da competição privada; ao contrário, são orientadas por metas nacionais, planos quinquenais e uma estratégia de longo prazo. Enquanto isso, a burguesia chinesa, embora rica e influente, não é classe dominante, ou seja, não controla o Estado chinês. Sem autorização do Partido, nenhum bilionário compra um jornal, interfere na política ou define políticas públicas. Uma burguesia disciplinada é algo que não existe em nenhum país essencialmente capitalista.

Ao mesmo tempo, é evidente que a China não é comunista em sua definição clássica. Há exploração, desigualdade, lucro privado, competição, demissões e tensões sociais. Trata-se de uma formação híbrida que cria caminhos próprios e reais e, sobretudo, que se desenvolve conforme a advertência de Marx: cada sociedade avança a partir de suas condições próprias e de suas contradições específicas.

O mundo ainda não sabe o que a China será daqui a 50 anos — talvez nem ela mesma saiba. Mas uma coisa é certa: exigir que a China se comporte como a URSS é desconhecer a história; exigir que se comporte como os Estados Unidos é desconhecer o marxismo; exigir que copie Cuba é desconhecer os limites geopolíticos, geográficos e econômicos de cada país. A China é, por construção histórica, produto de si mesma — e é isso que a torna tão difícil de classificar, para alguns, e tão fascinante de observar.

Em última instância, talvez o maior mérito da experiência chinesa não seja oferecer respostas, mas devolver a pergunta essencial que Marx colocou em 1848: o que cada sociedade, com suas particularidades, é capaz de construir quando se recusa a aceitar as fronteiras impostas pelo capitalismo mundial? A história, mais uma vez, está sendo escrita em mandarim e com gramática própria.

Alonso Barros é economista, mestre e doutor em Economia

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