A cobiçada e cara inovação da nobre Costa Supertoscana

Busca por um estilo mais internacional ganhou adeptos não apenas pela inclusão de uvas bordalesas, mas pelo uso de barricas diferenciadas.

Vinho etc / 18:39 - 6 de mar de 2020

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Há alguns dias, rodou nas redes sociais um post que dizia que o vinho italiano transmitia o coronavírus e que, em decorrência disso, algumas pérolas estavam sendo descartadas. A brincadeira sugeria que os vinhos fossem entregues em nossas casas, a despeito dos contágios. A Toscana, Piemonte, Veneto são objetos de desejo de quaisquer amantes de vinhos bem informados. Apesar dos controversos indicadores de qualidade que figuram no universo vitivinícola italiano, não há como negar o fascínio que os seus vinhos podem despertar, frutos da multiplicidade de variedades de uvas, solos, climas, topografias e paisagens que trazem em si mesmas uma rica e vasta herança cultural.

A Toscana é uma dessas regiões que por si só apresenta uma ampla variedade de tipos de vinhos, sendo que boa parte deles com reconhecida qualidade. Falamos das Colinas Centrais que trazem os vinhos que mais dizem da identidade toscana, e agora é a vez da Zona Costeira do Mar Tirreno, que fica a sudoeste da Toscana e é denominada Maremma, englobando as províncias de Pisa, Livorno, Grosseto e Viterbo. Para o vinho, considero aqui, especialmente, as regiões costeiras de Livorno e Grosseto, que receberam muitos investimentos a partir da década de 1980.

A sul de Livorno, próxima da costa, está Bolgheri, conhecida pela produção de vinhos rosés até se consagrar como a terra dos “Supertoscanos”, vinhos que rivalizam em valor e qualidade com outros vinhos prestigiados da Toscana e que têm por característica a utilização de castas não autóctones em seus cortes. Os protagonistas dessa inovação que, de certa maneira, inspiraram a produção desses grandes vinhos, foram membros das famílias Antinori e Incisa della Rocchetta, com a criação do aclamado Sassicaia, em 1968.

A história do Sassicaia começa em torno de 1940, quando o aristocrata Marquês Mario Incisa della Rocchetta plantou algumas mudas de Cabernet Sauvignon trazidas do Chateau Lafite Rothschild, de Bordeaux, num vinhedo da Tenuta San Guido, em Bolgheri, chamado Sassicaia. A primeira safra foi em 1942, feita para consumo interno, e a comercialização começou em 1968, incentivada por Piero Antinori, sobrinho de Mario Rocchetta e que faria o próximo Supertoscano. Embora a criação dos Supertoscanos seja atribuída ora aos Antinori ora aos Rocchetta, quem esteve a cargo dessas produções foi o enólogo italiano Giacomo Tachis, falecido em 2016.

No início dos anos 1970, a busca por um estilo mais internacional ganhou adeptos não apenas pela inclusão de uvas bordalesas, mas pelo uso de barricas de tipos, tamanhos e tempos diferenciados. Assim, aprimorou-se não só o Sassicaia, mas surgiram o Tignanello, em 1970, criado por Piero Antinori, com 80% de Sangiovese e 20% de Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc; e o Solaia, em 1978, invertendo as proporções de Sangiovese e Cabernets do Tignanello. A consagração internacional veio em 1978, numa degustação em Londres, na qual o Sassicaia foi eleito um dos melhores Cabernet Sauvignons do mundo. Acredita-se que a expressão “Supertuscan” foi proferida pela primeira vez pelo crítico norte-americano James Suckling, editor da revista especializada The Wine Spectator na época.

A despeito da grande consagração internacional, ao lado dos vinhos de Bordeaux, do Napa Valley (entre outros que têm a Cabernet Sauvignon como estrela), os Supertoscanos não foram autorizados a usarem os reconhecimentos DOC(G) em seus rótulos, já que fugiam do perfil identitário da Toscana. Até meados de 1990, esses vinhos eram rotulados como Vino di Tavola ou IGT, quando as regras foram alteradas e acolheram algumas inovações. Hoje, muitos deles são rotulados como DOC Bolgheri, e o Sassicaia, considerado por muitos como o melhor vinho italiano, ganhou uma DOC própria, a Bolgheri Sassicaia.

Os Supertoscanos consagrados estão entre os vinhos mais caros da Itália. Conquistaram adeptos no mundo todo, mas também receberam críticas, como as do documentário Mondovino, produzido pelo jornalista Jonathan Nossiter em 2004, onde denuncia-se a perda da tipicidade resultante do processo de globalização e a mafiosa associação entre grandes capitais produtivos, enólogos, críticos e publicações especializadas, que deixam pouco espaço à sobrevivência dos pequenos produtores de vinhos de terroir.

De fato, famílias fiorentincas, como Frescobaldi, Antinori têm suficientes recursos para criarem alianças que permitem a consagração de seus vinhos num mercado globalizado, cuja visibilidade é mais fácil e conta com a força do marketing especializado. Outros projetos ambiciosos proliferam, e a essa altura a DOCG é só um detalhe. Como comenta a crítica de vinhos Jancis Robinson, “muitas dessas vinícolas são hobbies de homens ricos, construídas com todos os recursos modernos que o dinheiro pode comprar e desenhadas para produzirem vinhos de estatura”.

Os Antinori se tornaram imperialistas, como os grandes produtores e negociantes de Bordeaux, contando hoje com: o Castello della Sala na Umbria, produtor do grande vinho branco “Cervaro della Sala”; a Tenuta Guado al Tasso, em Bolgheri, produtora de brancos, rosés e tintos da nova geração ao estilo bordalês; as vinícolas Badia a Passignano, Peppoli (Chianti), Pian delle Vigne (Montalcino), e La Braccesca (Montepulciano); a Prunotto, produtora de Barolos no Piemonte; a Tormaresca, na Puglia, entre outros.

Além da região de Bolgheri, há muitas novidades em áreas próximas da região costeira e nas colinas internas da província de Grosseto. Ali se faz vinhos premium, com estilo mais moderno e produção em quantidade comercial relevante. Morelino di Scansano é a DOC tradicional, cujos vinhos são feitos de uma Sangiovese mais dócil, que requer menos tempo de maturação, devido à proximidade costeira. Val di Cornia segue o estilo mais tradicional, com vinhos de maior acidez e potencial de guarda, cortados com Cabernet Sauvignon e Merlot. Monteregio di Massa Marittima é uma DOC mais recente de vinhedos localizados ao norte de Grosseto, que produz Sangiovese varietal ou em cortes com as uvas bordalesas.

 

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