A crise da educação no Brasil não é uma crise: é projeto

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Sala de Universidade (foto ABr) ensino superior
Sala de Universidade (foto ABr)

Universidade pode se tornar uma instituição que transforme o homem e o mundo

 

Darcy Ribeiro, um brasileiro iluminado, emitiu um pensamento que dá o título desse artigo. Ele criou duas universidades, a Universidade de Brasília e a Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro. Em parceria com Anísio Teixeira e outros educadores, defendiam que a educação seria o melhor caminho para conquistarmos um Brasil democrático sem injustiça social, com condições de vida dignas, com oportunidades de cada brasileiro e brasileira, conquistarem seus sonhos.

Os recentes bloqueios no orçamento das Universidades públicas federais revelam de forma explícita esse projeto desumano e impatriótico que nos conduzirá a ser um país periférico e colonizado, com a desconstrução do ensino público, gratuito e de boa qualidade. As ações planejadas destroem o melhor caminho para um futuro virtuoso: o ensino, como direito fundamental de todos, e o desenvolvimento científico fundamentais para a construção de uma sociedade feliz e harmônica.

Felizmente, essa decisão governamental foi revogada pela imediata reação de estudantes que protestaram nas ruas contra a insana medida. Sinais de expansão dessas manifestações e a mobilização de entidades, tais como: Academia Brasileira de Ciências (ABC); Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes); Federais de Ensino Superior (Andifes); Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap); Conselho Nacional das Fundações de Apoio às Instituições de Ensino Superior e de Pesquisa Científica e Tecnológica (Confies); Associação Nacional de Pós-Graduandos (Anpg) e Tecnológica (Confies); Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (Conif); Conselho Nacional dos Secretários para assuntos de CT&I (Consecti); Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis (Ibrachics) e Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), fizeram rapidamente revogar essa afronta ao ensino público brasileiro. Esse é um bom exemplo que a reação da sociedade a atos impatrióticos têm força em uma sociedade democrática.

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Em vez de colocar as Universidades públicas em estado terminal, o que precisamos, é uma revitalização da educação brasileira, desde a primeira infância até a pós-graduação. No ensino superior, a verdadeira autonomia deve ser conquistada. É preciso que a Universidade se envolva de corpo e alma na melhoria do ensino básico, formando um professor contemporâneo que atue como estimulador e que encante os seus estudantes. A Universidade deve estar aberta para atividades de estudantes do ensino fundamental e médio. Sem egressos do ensino básico que pensem, contestem, que criem, não teremos uma Universidade de qualidade.

O processo de escolha dos dirigentes deve ser repensado. Uma prioridade é que a Universidade se envolva de corpo e alma na melhoria do ensino básico formando um Professor contemporâneo que atue como estimulador e que encante os seus estudantes.

Durante o curso de graduação, o estudante tem de ser estimulado a adquirir uma verdadeira cultura universitária além de ter as competências profissionais para as atividades que escolheu. As atividades clássicas em sala de aula devem ser reduzidas e o aprendizado deve ser feito em torno de temas e problemas.

Ao contrário do que ocorre hoje, onde somente as atividades de pesquisas são valorizadas, o ensino e a extensão devem ser também valorizados para a conquista de uma desejada simetria nos três pilares da Universidade: ensino, pesquisa e extensão. O ensino de pós-graduação deve ser também repensado tendo como base uma maior flexibilidade com a introdução atividades que estimulem a formação de lideranças e a responsabilidade social. A avaliação da pós-graduação precisa também ser repensada.

A Universidade deve reconquistar a vanguarda para gerar uma estratégia que apontem para um futuro virtuoso do país. A crise na Universidade pode ser vencida e ela se tornar, como dizia Paulo Freire, uma instituição libertária que transforme o homem e o mundo.

 

Isaac Roitman é professor emérito da Universidade de Brasília, pesquisador emérito do CNPq, membro da Academia Brasileira de Ciências e do Movimento 2022 – 2030 O Brasil e o Mundo que queremos.

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