A crise e a importância da energia

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Desde a formação do pensamento cientifico, e em particular, desde a introdução da noção de energia, no início do século XIX e o advento da termodinâmica, uma imagem se impôs aos poucos: energia é uma pura realidade física controlável por processos técnicos segundo uma lógica puramente econômica. Os sistemas energéticos, entretanto, envolvem relações de poder e dominação, ou seja, o peso dos direitos adquiridos e dos interesses envolvidos é um fator restritivo a mudanças.
Toda produção é uma apropriação da natureza pelo indivíduo, no interior de uma forma social determinada por esta (Marx). Assim sendo, a mesma tem de um lado o sistema de relação, entre a sociedade e a natureza, e de outro um sistema das relações internas da sociedade – as relações de produção que regem a organização social da interação sociedade/natureza.
Com grande sabedoria, o autor citado, em meados do século XIX já vislumbrava a lógica da destruição tendencial do meio ambiente pelo modo de produção capitalista. Ou seja, sociedade e natureza formam um todo indissociável, com a natureza sendo o objeto dos processos de trabalho, mesmo na sociedade pós-industrial, baseada na informação e no trabalho imaterial.
No longo prazo, a determinação energética não cessará de pesar, direta ou indiretamente, sobre o movimento da produção e das trocas, bem como de orientar as grandes decisões tecnológicas e de modificar as opções políticas. Longos períodos de crise, reestruturação e reorganização têm sido típicos da história econômica da economia de mercado.
O capitalismo só triunfou quando se identificou com o Estado. Ou seja, quando a elite financeira se uniu à elite política. A concentração de poder nas mãos de determinados blocos de órgãos governamentais e das grandes corporações revelou-se historicamente essencial para consolidar as expansões materiais da economia.
A expansão do poder capitalista deve-se à formação e uma estrutura política dotada de capacidade organizacional, cada vez mais ampla e complexa de controlar o meio social e político em que se realiza a acumulação.
Tal como presenciamos na atual conjuntura, as expansões do capital financeiro estiveram sempre presentes nas fases maduras dos ciclos econômicos. Assim foi com os holandeses no século XVIII, que se transformaram nos banqueiros da Europa, ou dos ingleses no século XIX, diante do excesso de capital monetário gerado pela revolução industrial.
Na crise, os agentes produtivos optam pela busca frenética pela liquidez. Nota-se com grande clareza a tentativa de superar o atual momento de turbulências mediante a redução da rigidez dos comprometimentos do Estado com os programas de seguridade social e os gastos excessivos com as guerras.
Historicamente, expansão e crise foram etapas vividas no ciclo genovês dos séculos XV e XVI, holandês do século XVII, britânico entre os séculos XVIII e XX e o mais recente – o ciclo norte-americano.
A Ásia oriental é uma grande região do passado que esteve na vanguarda do desenvolvimento mundial, por pelo menos mil anos. E recentemente voltou a brilhar, com a ascensão do Japão nos anos 1960 e com o surgimento da China como novo centro de expansão econômica e comercial dinâmico.
Os agentes capitalistas investem recursos assumindo riscos, comprando matérias-primas, contratando a força de trabalho e escolhendo tecnologias organizacionais e produtivas para criar mercadorias. Neste ambiente, a análise energética é um instrumento insubstituível para uma boa gestão dos recursos naturais.
Os ecologistas têm toda razão quando denunciam o caráter irreversível da destruição da atmosfera, fruto da concentração exagerada de CO2. O capitalismo, além de seus limites internos, revela nesta crise atual a incapacidade de se libertar dos condicionantes da natureza. Terra, trabalho e moeda não são mercadorias quaisquer.
A realidade com que nos deparamos parece confirmar o pensamento de autores progressistas, segundo o qual a sociedade capitalista é incapaz de reconciliar o homem com homem e, principalmente, o homem com a natureza.
Nenhuma alternativa social será concebível, de agora em diante, se não implicar o estabelecimento de um novo sistema energético, na medida em que a energia é a condição fundamental da existência dos grupos humanos. A mobilização nas energias organiza-se no interior de sistemas cujas dimensões são, ao mesmo tempo, sociais, técnicas e políticas.
A gravidade da crise ecológica torna urgente o aparecimento de uma sociedade, onde as opções produtivas sejam função do valor de uso real dos produtos e não mais determinadas pela lógica implacável de uma acumulação material, cada vez mais esbanjadora de energia fóssil.
O Brasil, com sua matriz energética equilibrada – centrada na energia renovável – e sua extraordinária biodiversidade tem a opção de aproveitar a transição para um novo modelo societário, partindo na frente e reduzindo aceleradamente a proporção de carbono na geração da produção de bens, bem como na estruturação do seu sistema de transportes públicos e na preservação de nosso patrimônio florestal.

Ranulfo Vidigal
Economista, mestre e doutorando em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento pelo Instituto de Economia da UFRJ.

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