A desigualdade entre os ‘iguais’

Por Rafael Luciano de Mello.

O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo, segundo o Índice Gini, indicador do Banco Mundial que avalia a desigualdade de distribuição de renda entre os países. A desigualdade tem impactado a vida dos brasileiros há tempos, o que ficou ainda mais escancarado com a pandemia da Covid-19.

Somos afetados nas diferentes esferas da vida, inclusive nas atividades de lazer e esportes. É menos comum vermos pessoas de baixa renda aproveitando o tempo livre em academias de ginástica ou praticando esportes com os amigos. A explicação para este comportamento é complexa e envolve múltiplos fatores. Uma das possibilidades é a exaustão e a indisposição para a atividade física por conta do trabalho, que em boa parte dos casos são atividades braçais realizadas por longas jornadas. Outro aspecto a se pensar é justamente a questão da renda. Afinal, se muitos mal têm o que comer, como irão pagar uma academia ou ter “cabeça” para tal?

Agora, alguns de vocês devem estar se perguntando: “Mas, se fazem trabalho braçal, já praticam atividade física suficiente, não?” Este pensamento está parcialmente certo, pois as atividades físicas laborais são aliadas no combate ao sedentarismo por proporcionarem, de certa forma, ganhos à saúde física. No entanto, os benefícios adquiridos com a prática vão muito além da saúde física. Há que se considerar o bem-estar mental, a inclusão social, a melhora do desempenho cognitivo e da autoestima, vantagens que não são adquiridas “batendo massa” em uma obra ou fazendo faxina na casa do patrão, e sim praticando atividade física no tempo livre.

Se a questão é financeira, por que então não utilizar os equipamentos públicos de lazer da cidade? Por isso, é crucial falarmos dos espaços públicos de lazer e suas desigualdades. Estes espaços deveriam ser oportunizados para pessoas de diferentes classes sociais e assim cumprirmos o dispositivo da Constituição Federal que versa sobre a igualdade. Mas se somos iguais perante a lei, será que temos as mesmas oportunidades de frequentar estes ambientes, independentemente de cor, raça ou classe social?

Não é o que parece. Locais como parques, praças ou quadras poliesportivas públicas estão localizadas na maioria das vezes em regiões de maior renda, sobretudo aqueles com equipamentos de melhor qualidade. Os disponíveis em áreas mais vulneráveis enfrentam problemas de segurança e falta de manutenção.

Agora, pense na sua cidade: os espaços públicos mais bonitos, seguros e com variedade de estruturas estão localizados em quais regiões? Nas mais ricas? Pois é, o que deveria ser implementado para atenuar a desigualdade pode fazer o efeito contrário, a depender das políticas públicas adotadas.

Portanto, os espaços públicos de lazer oferecem a possibilidade de equalizar uma ponta da desigualdade no país, mas, para que isso tenha algum efeito, é necessário que o poder público implemente locais de boa qualidade, acessíveis e seguros nas regiões de maior vulnerabilidade socioeconômica, favorecendo os menos favorecidos e contribuindo, quem sabe, para retirar o Brasil da triste posição de um dos países mais desiguais do mundo.

 

Rafael Luciano de Mello é mestre em Atividade Física e Saúde e professor da área de Linguagens Cultural e Corporal nos cursos de Licenciatura e de Bacharelado em Educação Física do Centro Universitário Internacional Uninter.

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