A Doutrina Biden, o retorno dos impérios e o paradoxo europeu

Por Fabio Reis Vianna.

Nos estertores do trágico ano de 2020, Jake Sullivan lançou um tuíte exortando os europeus a uma atuação conjunta frente ao “preocupante comportamento econômico da China”. O hoje Conselheiro de Segurança Nacional da recém-empossada administração democrata assim dava os primeiros sinais do que seria o tom do Governo Joe Biden diante dos tradicionais aliados dos Estados Unidos.

Com a manifestação de Sullivan, não apenas se confirma o uso do Twitter como eficiente e corriqueiro instrumento diplomático de âmbito global, como também se inaugura a retórica que deverá moldar aquilo que alguns analistas já nomeiam como Doutrina Biden.

A postura agressiva da administração Trump, que ao final revelou-se concretamente em pura retórica – visto que, surpreendentemente, Trump, em suas próprias palavras, foi o primeiro presidente em “décadas” que não iniciou “novas guerras” – certamente não foi um ponto fora da curva na conduta impositiva e com viés imperial que os Estados Unidos vem aprofundando de maneira ininterrupta desde 1991.

Tendo sido a primeira demonstração de poderio militar e tecnológico da nova ordem liberal unipolar que nascia dos escombros da cortina de ferro, a primeira guerra do golfo poderia ser considerada a encenação inaugural do caminho estadunidense rumo à constituição de um império militar global.

Uma guerra absolutamente desnecessária e contra um inimigo indefeso que serviu apenas como um definidor de parâmetro: a instituição de um poder coercitivo baseado no controle de um sentimento que paralisa qualquer um que se atreva a desafiar este poder – o medo.

O controle do medo, ou o princípio do limite, muito bem conceituado pelo professor da UFRJ José Luís Fiori, representou acima de tudo um aviso ao resto do mundo de que o vencedor da guerra fria, que paradoxalmente foi vencida sem uma guerra (quente), não admitirá ser desafiado em hipótese alguma.

A estratégia de segurança nacional de 2017, como que numa confissão por escrito, veio apenas delinear e oficializar o que na prática já vinha ocorrendo e se aprofundando desde aquela fatídica guerra de 1991. Na prática, a estratégia de segurança nacional de 2017 é um aviso mais contundente às potências emergentes e “revisionistas”, em especial Rússia e China, de que o modelo de governança global regulado pela ordem internacional liberal – vigente durante todo o período do pós-guerra – acabou. Sejam bem vindos à velha ordem vestfaliana.

Neste novo (velho) cenário de competição permanente entre estados soberanos, os Estados Unidos, portanto, passam a assumir, sem subterfúgios, que seu próprio interesse nacional passará a guiar suas ações. E se necessário com o uso da força.

A própria estratégia econômica de Biden parece insinuar uma continuação do viés nacionalista iniciado na administração Trump, mesmo que para isso esteja sendo ensaiada uma retórica mais suave e ao estilo democrata.

Percebendo para onde o vento sopra – mesmo que tardiamente e em final de mandato – Angela Merkel se apressou em acenar a Pequim o concreto interesse europeu em concluir o acordo abrangente sobre investimento o mais rápido possível.

Farejando a oportunidade, Xi Jinping acaba facilitando o acordo ao ceder a uma série de concessões muito caras ao interesse europeu, principalmente a que diz respeito a não obrigatoriedade de transferência de tecnologia por parte das empresas europeias que venham a se instalar na China.

Muito provavelmente, o líder chinês buscou aproveitar o período de transição e procurou antecipar o acordo antes que Joe Biden assumisse de fato a cadeira presidencial.

Um sinal de alerta às lideranças chinesas e europeias pode ter sido o documento assinado pelo próprio Jake Sullivan e intitulado “Making U.S. Foreign Policy Work Better for the Middle Class”. O documento, publicado pelo Carnegie Endowment for International Peace, praticamente antecipa o viés econômico da estratégia que deverá ser seguida pela administração Biden.

Trata-se de uma ode à reconstrução da economia americana pós-pandemia com foco no interesse nacional, sendo de fato portanto uma continuidade da política soberanista de Trump, porém com tons mais à esquerda.

Sendo assim, engana-se quem pensa que a Doutrina Biden será uma retomada do liberalismo econômico dos governos democratas que o antecederam; pelo contrário, tudo leva a crer que a maneira errática como os Estados Unidos lidaram domesticamente na contenção à pandemia – o que afetou drasticamente seu papel de liderança global – levará a uma reação agressiva não só em termos econômicos, mas principalmente em termos militares.

É inegável que o vácuo de liderança gerado pela incompetência americana no combate à pandemia acelerou um aumento das rivalidades e da competição no sistema mundial. Um aumento na escalada das tensões militares que já vinho sendo observado em várias regiões do planeta se acelerou drasticamente com o advento da peste.

O ressurgimento de antigos impérios como China, Índia, Turquia e a própria Rússia – que, se utilizando dos mesmos mecanismos do jogo de poder inventado pelos ocidentais, vem demonstrando uma força e resiliência impressionantes durante a crise pandêmica – parece ter acendido o alerta de autosobrevivência inclusive da velha Europa.

Inventores de fato do sistema mundial vigente desde quando seus pequenos Estados nacionais começaram a aventura expansiva há mais ou menos 500 anos, os europeus encontram-se neste momento em uma verdadeira sinuca de bico existencial.

O que permitiu a expansão para fora destes pequenos e belicosos territórios foi justamente a violenta competição interna entre eles, o que impediu, inclusive, que a Europa se transformasse num império unificado. O tempo e o destino, ironicamente, vêm a jogar o peso dessa nova era dos impérios no colo de uma Europa mais dividida do que nunca.

Muito provavelmente ciente dos desafios que virão pela frente, Angela Merkel afirmou, no último dia 26 de janeiro, em Davos, a importância da pandemia como um teste “à resiliência de nossos sistemas e sociedades” e que “nossa vulnerabilidade ficou óbvia”.

O paradoxo da Europa é saber que, sem uma UE pacífica, forte e unificada, certamente ficará para trás; ao mesmo tempo, a força que sempre permitiu à Europa acumular poder e riqueza ao longo de séculos foi justamente essa caótica máquina de guerra, violência e competição interna.

 

Fabio Reis Vianna é escritor e analista geopolítico.

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