A era da mediocridade

Os sonhados 2% e 2,5% ficam para 2020, como aconteceu de 2018 para 2019.

Quando se vê a comemoração de um crescimento de 0,6% do PIB como algo surpreendente e digno de fogos, há que se preocupar. O desempenho da economia brasileira melhorou, mas ainda permanece medíocre e bem aquém do necessário para aliviar as ansiedades da população, que convive com uma taxa de desemprego de 11,6%, segundo a última Pnad do IBGE, que se refere ao trimestre encerrado em outubro.

Há sempre os que enxergam a luz no fim do túnel e vêm com as frases de que no fundo têm a conotação: agora vai. Mas sempre acaba que o Brasil permanece sendo o país do futuro, e o presente… O PIB ainda está 3,6% abaixo do pico da série, atingido no primeiro trimestre de 2014. E a economia brasileira se encontra em patamar semelhante ao do 3º trimestre de 2012.

Os dados do IBGE, que passarão por uma nova revisão – os oficiais saem em março do ano que vem – demonstram que entre o terceiro trimestre de 2018 e de 2019, a economia cresceu 1,2%. A divulgação fez com que economistas reverem suas projeções para cima tanto para 2019 quanto para 2020. Este é o caso do Goldman Sachs, que elevou a projeção deste ano de 1% para 1,2% e do Santander (de 0,8% para 1,2%). A Fitch Ratings também ficou mais otimista com o crescimento da economia brasileira. A estimativa para este ano saiu de 0,8% para 1,1% e para 2020 subiu 0,2 ponto percentual, para 2,2%.

Já os sonhados 2% e 2,5% ficam para 2020, como aconteceu de 2018 para 2019. O relatório Focus do final de dezembro de 2018 ilustra bem isso. Naquela ocasião, as projeções eram de que o PIB deste ano registrasse incremento de 2,55%, bem acima da realidade atual. Será que acertam no próximo ano? Difícil. Ainda mais quando se observam as declarações, de que o crescimento mais forte da economia será calcado na maior confiança na equipe econômica do governo. E, deste governo, tudo se pode esperar.

Do lado positivo, pode-se identificar que a continuidade da queda dos gastos do governo – que precisa demonstrar maior austeridade fiscal – foi compensada pelo maior volume de investimentos e aumento dos gastos das famílias. No terceiro trimestre em relação aos três meses anteriores, a Formação Bruta de Capital Fixo subiu 2,0% e a Despesa de Consumo das Famílias, 0,8%. Já a Despesa de Consumo do Governo (-0,4%) recuou em relação ao trimestre imediatamente anterior. No setor externo, as Exportações de Bens e Serviços recuaram 2,8%, enquanto as Importações de Bens e Serviços cresceram 2,9% na mesma comparação.

O crescimento dos investimentos versus queda dos gastos do governo é o que mais dá alívio quando se abre os dados do PIB. Na comparação anual, a Formação Bruta de Capital Fixo subiu 3,1% e a Despesa de Consumo do Governo recuou -0,7%. Estes dados demonstram que a Nova Matriz Econômica de Dilma está sendo abandonada, ou seja, deixa-se de ter uma economia calcada nos gastos do estado para ser impulsionada pela iniciativa privada.

Mantido este cenário, pode-se esperar uma melhora dos fundamentos econômicos brasileiros, pois os investimentos sempre tiveram uma participação muito pequena na composição do produto do país, ao redor de 15%. Tal fato criou uma distorção na economia, deixando em cima do governo e do consumo a responsabilidade pelo incremento do PIB.

No entanto, este ainda é um pequeno passo para afirmar que a mudança está para se consolidar e que esta será a nova estrutura de crescimento econômico. É preciso que haja confiança e estabilidade para que a iniciativa privada tome seu espaço no PIB quando se trata de investimentos, algo que a economia brasileira ainda não tem. Enquanto isso não ocorre, vivemos a era da mediocridade, com esses pequenos soluços comemorados como se fossem um ganho espetacular.

Ana Borges
Colunista.

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