A espada de Trump e a sombra do golpe que volta a rondar o Brasil

Tendência da ação de Trump por um golpe no Brasil e de aumento da polarização e das divisões nas elites nacionais. Por Fabio Reis Vianna.

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Donald Trump caminha nos jardins da Casa Branca usando boné 'USA'
Donald Trump com boné 'USA' (foto de Hu Yousong, Xinhua)

Nas últimas semanas, a estupefação tomou conta da sociedade brasileira em razão do virulento ataque do governo Trump ao país. Por meio de uma carta oficial dirigida ao presidente Lula, Trump impõe de maneira imperial uma série de exigências, que, se não cumpridas pelo Estado brasileiro, teriam como resposta um tarifaço de 50% sobre tudo que o Brasil exporta aos Estados Unidos.

A despeito das motivações descritas na carta, nomeadamente os supostos abusos judiciais que recaem sobre o ex-presidente Bolsonaro, é preciso que deixemos claro que tudo o que foi alegado não passa de cortina de fumaça para encobrir as reais motivações que levam Trump a colocar uma espada sobre nossas cabeças, e estas motivações são eminentemente geopoliticas.

Não por acaso, os ataques e ameaças de Trump ao Brasil não se resumiram aos problemas judiciais de Bolsonaro, como constatado nas ilações a respeito do Pix como suposto instrumento de concorrência desleal contra empresas americanas.

Na realidade, o que estamos assistindo muito se assemelha a uma estratégia de guerra híbrida em que a vítima é bombardeada por múltiplas acusações e exigências impossíveis de serem cumpridas, e mesmo que o Brasil aceitasse todas as condições impostas, ainda assim o país agressor continuaria os ataques, pois o objetivo final de uma guerra híbrida é deixar o país agredido em rendição completa.

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O Brasil, ao longo da história, foi alvo diversas vezes do imperialismo norte-americano, mas o modus operandi truculento do trumpismo é inédito, algo inclusive que já se ensaiava em seu primeiro mandato. Percebam que o próprio tratamento dado por Trump ao Brasil é extremamente mais truculento do que a qualquer outro país que tenha sido atacado até agora – talvez só o Canadá foi atacado com tamanha violência retórica.

Golpe de Trump contra Brasil tem paralelo com 1964

Relembremos a prisão de Lula como um primeiro ensaio deste modus operandi trumpista, em abril de 2018, para garantir a eleição de Bolsonaro. Nesta perspectiva, portanto, o que está ocorrendo neste momento é uma intervenção direta, sem subterfúgios ou o uso de setores entreguistas das nossas próprias elites oligárquicas internas.

Algo que nos leva a intuir o óbvio: o fatídico Golpe de Estado teria se concretizado caso Trump estivesse no poder em 8 de janeiro de 2023. Ou seja, o que o Governo dos Estados Unidos está fazendo contra o Brasil já era previsto desde o retorno de Trump à Casa Branca, e Bolsonaro é apenas o “boi de piranha” para enquadrar o Brasil à estratégia imperial de segurança dos EUA para a América Latina.

Neste contexto, a entrevista de Eduardo Bolsonaro reiterando ameaças a nossa soberania é gravíssima e criminosa – se de fato Trump estiver usando o clã Bolsonaro como isca, estaríamos vivenciando o maior ataque estrangeiro direto ao Brasil em séculos, e qualquer tentativa de negociação seria inócua, na medida em que os ataques teriam motivações eminentemente geopolíticas.

Indo além e pensando de maneira realista, não podemos descartar que Trump tente de fato derrubar o governo Lula a qualquer custo, algo que traria um disruptivo cenário similar ao que ocorreu com Jango em 1964.

Hegemon em declínio busca rearranjar as peças do tabuleiro global

Em termos globais, a estratégia trumpista tem como objetivo mais amplo fragmentar o sistema internacional, estimulando as divisões e os conflitos entre todos os atores do sistema. Neste sentido, e dentro de uma perspectiva de declínio da hegemonia, os EUA tendem a se fortalecer diante de um mundo fragmentado pois podem colocar-se como eventuais mediadores dos conflitos que eles mesmos criam – para um país que ainda detém um império militar global espalhado por diversos territórios do planeta parece vantajoso.

A guerra comercial levada a cabo pelo governo Trump é contra todos os atores do sistema internacional, mas atinge principalmente os antigos e mais fiéis aliados dos Estados Unidos, o que num primeiro olhar parece uma contradição, mas faz sentido se levarmos em consideração que um Hegemon em declínio busca de maneira truculenta rearranjar as peças de um tabuleiro global que tem a China como alvo principal a ser destruído.

Dentro desta lógica, quem deverá pagar os principais custos do declínio imperial dos Estados Unidos são seus próprios aliados, principalmente os de sua periferia mais próxima, ou entorno estratégico.

Até o momento em que este texto está sendo escrito, é notória a movimentação de setores de nossas elites oligárquicas com o intuito de emparedar o governo e fazê-lo submeter-se aos desmandos de Donald Trump. Editoriais e articulistas de grandes jornais brasileiros vocalizam estes movimentos ao sugerirem um afastamento preventivo do Brics, ou mesmo um “receio” crescente das Forças Armadas brasileiras com a politização interna da escalada tarifária trumpista.

O próprio confronto permanente entre os três Poderes da República neste momento tem sido discutido na caserna como algo negativo, o que nos leva a intuir que os militares novamente se veem incensados a interferir no processo político-institucional brasileiro.

Apurações recentes do jornalista Jamil Chade, a partir de informações de um agente da Abin, constataram que haveria um movimento da CIA articulado com o clã Bolsonaro e outros opositores radicados nos Estados Unidos para efetivamente desestabilizar o Brasil.

Nesta toada, mesmo que num primeiro momento o governo saia fortalecido em popularidade diante do rechaço social às tarifas de Trump, a tendência será um aumento da polarização e das divisões no seio das elites nacionais. O primeiro dia de agosto se aproxima e, como um vento gelado, traz consigo memórias de outros agostos turbulentos da política brasileira.

Fabio Reis Vianna é mestre em Relações Internacionais e Estudos Europeus pela Universidade de Évora em Portugal; analista político internacional e professor.

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