A ética na educação

Por Isaac Roitman.

Opinião / 17:42 - 27 de fev de 2020

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Há mais de 40 anos, o educador José Pacheco, fundador da Escola da Ponte, em Portugal, decidiu criar uma escola (sem aulas expositivas, sem as avaliações tradicionais, sem séries) que pudesse abrir as portas para uma educação para o século XXI, pois avaliou que nem todos os estudantes aprendiam. Considerou que como professor isso não era ético.

Arregaçou as mangas e, contando com a parceria de colegas, criou uma nova pedagogia ética que pudesse incluir todos os estudantes na aprendizagem. Esse novo modelo, onde os valores éticos eram enfatizados, espalhou-se pelo mundo, incluindo o Brasil, como o notável projeto Âncora (em Cotia, São Paulo) e em outras regiões como a Comunidade de Aprendizagem do Paranoá, no Distrito Federal.

 

Provocar mudanças no comportamento

de ‘levar vantagem em tudo’

 

A ética é transversal para todas as áreas de conhecimento, como, por exemplo, na economia. Segundo Charles K. Wilber, a economia e a ética estão relacionadas, pois ambos os economistas (teóricos e os construtores de políticas) e os atores econômicos (produtores, consumidores e trabalhadores) seguem princípios éticos que moldam os seus comportamentos.

Segundo o professor e filósofo Mario Sergio Cortella, a ética é o conjunto de princípios e valores que usamos para decidir nossa conduta social. Se só existisse um ser humano no planeta, não existiria a questão ética, porque ela é a regulação da conduta, da vida coletiva. Segundo ele, a ética pode ser utilizada como tema na educação formal. No Ensino Médio, deve ser abordada, normalmente, dentro da Filosofia, porque é uma parte dela. No Ensino Superior, tem sim, que aparecer como uma matéria, uma disciplina.

Um dos mais importantes objetivos da educação é a de formar cidadãos utilizando como conteúdos assuntos que estejam relacionados com as questões sociais que marcam cada momento histórico para que os estudantes possam exercer seus direitos e deveres.

A falta de ética na sociedade dificulta as relações profissionais e pessoais causando um comportamento social inadequado. Dessa forma, a ética e a responsabilidade social são pilares na educação. Ao mesmo tempo, ela é a bússola para descobrirmos os caminhos que nos conduzem a uma vida virtuosa. Nessa ótica, podemos minimizar ou eliminar problemas como a violência escolar, a segregação social, as práticas contrárias à igualdade, os conflitos entre alunos e professores, a gravidez precoce e os suicídios.

A incorporação de princípios éticos é construída por uma forte parceria entre a escola com a família e com os meios de comunicação e deve ser iniciada na primeira infância (0 a 6 anos). Quanto mais cedo o ser humano refletir sobre a ética, mais cedo iniciará o seu amadurecimento e estará mais preparado para enfrentar as questões do convívio social no dia a dia.

Ouvimos a toda hora que, atualmente, muitos problemas que o Brasil enfrenta são o resultado de que os representantes da população no governo deveriam cuidar dos interesses do povo, mas em alguns casos aprovam decisões em benefício próprio. No entanto, essa realidade não é exclusividade dos políticos, sendo um comportamento cultural, “levar vantagem em tudo”. Sendo assim, uma das formas de provocar mudanças na formação dos cidadãos é inserir desde cedo noções éticas na rotina escolar das crianças.

Assistimos perplexos a um distanciamento cada vez maior entre educação e formação. Crianças e adolescentes recebem oceanos de informações prontas, desconexas, e muitas vezes inúteis, que são incapazes de processar e integrar em um projeto de crescimento em conhecimento e sabedoria. A informação por si só não é formação, a ética é.

Isaac Roitman

Professor emérito da Universidade de Brasília, pesquisador emérito do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.

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