A Ford será nacionalizada

Medida dependerá de uma grande articulação política junto ao Congresso Nacional.

A montadora norte-americana Ford virou uma questão dos tribunais, sendo alvo de uma liminar onde a Justiça do Trabalho concedeu uma suspensão sobre a demissão coletiva de funcionários da fábrica de Camaçari, na Bahia. O juiz entendeu que os contratos de trabalho estão vigentes, e os salários seguem sendo pagos enquanto perdurar a negociação coletiva, feita agora em fevereiro.

Enquanto isso, a montadora não pode seguir com seu propósito de desmembramento sobre suas ações no Brasil, prosseguindo assim em um impasse legal por razões de sua decisão em se retirar da produção brasileira.

Claro que a situação gera uma grande indefinição no que se refere à condição da multinacional diante da perplexidade dos trabalhadores desempregados em massa, fato esse que os paralisa diante da falta de solução. Com negociações abertas, representantes sindicais em Brasília, levantaram uma tese sobre a solução do problema, no mínimo inusitada, que seria a nacionalização da Ford.

E a justificativa encontrada para a sustentação de tal tese se baseia em que a empresa é devedora no país. Isso por ela ter se beneficiado durante muitos anos de incentivos fiscais, tanto do governo federal, quanto do governo baiano, através de tributos como IPI e ICMS, além de empréstimos ativos do BNDES.

Deputados de diversos partidos consideraram plausível a tese e já se articulam na formação de uma frente parlamentar que visa a nacionalização dos ativos da Ford. A ideia funcionaria como uma autogestão das fábricas por meio do Governo Federal e trabalhadores, retomando assim a produção de automóveis (Ka, Ka Sedan e EcoSport), bem como de motores (1.0 3C e Dragon 1.5 3C) e transmissões.

O caminho para uma possível nacionalização da Ford, porém, passa por diversos estágios, sendo que o primeiro passo seria a criação de um projeto de lei, que será alvo de muitos debates, e que se aprovado tramitaria por diversas comissões, bem como votação em plenário da Câmara e do Senado, até chegar às mãos do presidente para sanção, ou veto.

O grande problema, no entanto, de tal proposta é o fator tempo. Pois será um processo demorado, e que poderá levar até dois anos. E nesse meio tempo, a Ford continuaria com suas fábricas fechadas, e seus trabalhadores paralisados.

Enquanto essa solução não chega, o grupo de trabalho composto por sindicatos, Governo da Bahia e Governo Federal permanece na busca de possíveis investidores que estejam dispostos a assumir as fábricas que permanecem fechadas até o momento.

João Leão (foto Secom BA)
João Leão (foto Secom BA)

Sobre estes e desdobramentos provocados pela saída da multinacional do território brasileiro, que continuam a repercutirem principalmente, sobre o impacto sofrido pelo município de Camaçari, conversei com o vice-governador, secretário de Desenvolvimento Econômico da Bahia, João Leão, em entrevista a seguir:

 

Como fica a perda de empregos, com forte impacto dos números indiretos de fechamento de postos de trabalho, causando um efeito dominó?

– O Governo do Estado, em parceria com a Federação das Indústrias e o Sindicato dos Metalúrgicos de Camaçari, está trabalhando em conjunto na busca por uma nova montadora de veículos, ou outras indústrias interessadas, para ocupar as instalações antes ocupadas pela Ford, no intuito de recuperar os empregos perdidos com a saída desta última. Esse trabalho também se estende à requalificação profissional dos egressos da Ford, para que possam ser absorvidos por outras empresas da região. Por fim, estamos trabalhando intensamente na atração de novas indústrias para o Polo Industrial de Camaçari, a exemplo do setor químico, para o qual estão sendo negociados diversos novos projetos, com a geração de mais de 2.500 empregos nos próximos anos. Também temos grandes projetos do setor de alimentos e bebidas em implantação em municípios a menos de 100 km de Camaçari que gerarão mais de 1.500 empregos.

 

Existe alguma previsão de utilização do parque industrial de Camaçari, o maior da América do Sul?

– Sim. O Governo do Estado, em parceria com a Federação das Indústrias (Fieb) e o Sindicato dos Metalúrgicos de Camaçari, levantou todas as informações sobre as instalações do Complexo Ford, da infraestrutura da região (portos, rodovias etc.), bem como da cadeia produtiva existente na região e as estamos divulgando às empresas automotivas de todo o mundo, em particular da Índia, China, Coreia do Sul e Japão, países cujas embaixadas foram visitadas pelo governador, acompanhado da Fieb e do Sindicato dos Metalúrgicos de Camaçari. O trabalho de divulgação continua, e estamos iniciando conversações também com as Câmaras de Comércio e Indústria desses países para disseminação dessas informações.

 

Como estão as negociações de investimento com a Índia, Japão e Coreia do Sul, além da China, para ocupar o espaço deixado pela Ford?

As reuniões realizadas pelo governador e comitiva com os embaixadores desses países foram bastante frutíferas e, a partir delas, diversas conversas com as Câmaras de Comércio e Indústria desses países e, também com algumas empresas já foram iniciadas.

 

Depois da saída da Ford, qual será a ordem de incentivo fiscal prevista para novos investidores do setor automotivo, ou de outros que apresentarem interesse no Brasil?

A Bahia dispõe de um excelente programa de incentivos fiscais para o setor automotivo, o Proauto, já utilizado pela Ford desde sua implantação em nosso estado, e que estará à disposição de toda e qualquer nova montadora que queira se instalar na Bahia.

 

Faltou investimento público no Complexo Automotivo, instalado em Camaçari, para a produção da Ford?

De modo algum. Toda a infraestrutura necessária à operação do Complexo Automotivo e a formação e qualificação de pessoal foram implementadas ao longo de todos esses anos. O Complexo Ford dispunha de um terminal portuário exclusivo construído pelo Governo do Estado, de conexão elétrica em alta-tensão diretamente com a Chesf, de um sistema viário de alta qualidade, de pessoal altamente qualificado, formado em parceria com o Senai/Cimatec, um dos maiores e mais importantes centros de alta tecnologia do Brasil e que abriga um Centro de Prototipagem Automotiva desenvolvido e operado em parceria com a Ford. Além disso, a Ford sempre contou com todo o apoio institucional do Governo do Estado da Bahia, inclusive quando da renovação de seus incentivos fiscais junto ao Governo Federal.

Roberto Ferro (foto divulgação)
Roberto Ferro (foto divulgação)

Já o fundador e presidente do Conselho do Lean Institute Brasil, professor Roberto Ferro, nos conta a respeito de como ficará o consumidor final dos produtos Ford e de seus protocolos de garantia:

 

Como funcionará o cumprimento da garantia dos consumidores que adquiriram veículos da marca Ford e ainda estão em prazo de garantia?

– A Ford continuará vendendo veículos no Brasil, pois não saiu do mercado nacional. A americana deixou de produzir aqui os seus carros, mas vai continuar importando automóveis do mundo inteiro. A multinacional tem focado sua produção em picapes, utilitários e SUVs, e vai continuar fazendo isso. São carros modernos que estão sendo feitos na Argentina e em outros países, e continuará cultivando os seus consumidores aqui no Brasil. E isso inclui dar todas as garantias necessárias para manter a fidelidade dos seus clientes e aumentar a sua fatia de mercado com esses modelos que ela se propõe a oferecer no mercado brasileiro, mas não mais produzidos aqui no país.

 

Quem realizará a assistência técnica no estado da Bahia?

– As próprias concessionárias da marca, é que continuarão fazendo isso. O problema é que talvez algumas delas fechem porque o volume de vendas da marca deve diminuir, pois a tendência é que adote uma margem de lucro maior em veículos mais caros e, por isso, os volumes de vendas também devem cair. E pode ser que algumas concessionárias fechem, não só na Bahia, mas em outras regiões do Brasil.

 

E finalmente, como funcionará a política de oferta de componentes e peças de reposição para os veículos da marca produzidos no Brasil ou importados de outros países?

– Do mesmo modo que vem funcionando até hoje. A Ford continua vendo o mercado brasileiro como um mercado atrativo, e vai continuar vendendo seus produtos no Brasil. Para isso precisa colocar à disposição aqui peças e componentes de reposição, continuando com sua política de oferecer peças e componentes, mas agora para os veículos que serão importados para cá.

Leia mais:

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Silvia Pereira
Colunista política

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