A fábula tucana

No seu indispensável A outra globalização, o geógrafo Milton Santos define como três as fontes constitutivas da globalização: a fábula, a perversidade e a possibilidade. A segunda é intrínseca aos fundamentos da globalização, enquanto a última carrega a esperança de que a mundialização resulte numa partilha mais justa das riquezas e dos benefícios acumulados pela humanidade. Das três, porém, a fábula é a mais paradigmática, por ter como função nos fazer aceitar como verdadeiro o mundo tal como nos fazem vê-lo.
Esse arcabouço teórico cai como luva para explicar o caráter das relações da mídia “chapa branca” e o Governo FH. Antes das Olimpíadas, este tipo de mídia nos vendia a fábula de que esta seria a melhor participação do Brasil nos jogos. Essa operação no mercado futuro não se fundava em nenhum dado concreto de melhoria das condições de vida dos brasileiros e de seu aprimoramento esportivo. Se encontrava naturalizada na tentativa de nos fazer aceitar o reinado tucano tal qual nos fazem vê-lo.
Somente essa narcotização explica a estupefação ensaiada agora pela quebra de expectativas acenadas. No mundo real, poucas coisas poderiam sintetizar melhor o desastre praticado em quase seis anos de malanismo: um país com baixa auto-estima, resultados pífios e com seus filhos entregues quase inteiramente a sua própria sorte. Dentro da lógica tucana da necessidade da legitimação com sotaque, o desempenho do país em Sidney revela que o rei está nu com tanta eloqüência que essa realidade não poderá ser coberta sequer pela fábula de medalhas isoladas.

Modelos
Também o esporte ajuda a revelar as diferenças entre as formas de inserção na globalização. Enquanto a China – inserção pró-ativa – disputa o alto da tabela com os Estados Unidos, o Brasil – inserção passiva – amarga vergonhosa disputa com Azerbaijão, Letônia, Colômbia, Moçambique e que tais.

Quem manda
A declaração do presidente do Banco Central, Armínio Fraga, de que o governo não pretende pagar em dinheiro a correção da tunga no FGTS confirma – infelizmente – previsão feita por esta coluna, no último 22, quando aqui se alertou os mais ingênuos de que a medida não teria conseqüência prática. Fraga deixou à mostra o caráter eleitoreiro da promessa de FH em conversa com banqueiros em Londres. Para a imprensa brasileira, a seguir, ele se recusou a comentar o assunto.

Cachorro morto
De um observador crítico da mídia brasileira: “Se a imprensa investisse contra o Governo FH com a mesma fúria com que está investindo contra o Wanderley Luxemburgo…”

É fogo!
Pequenos bares do Rio estão reclamando o novo critério adotado pela Souza Cruz. Quem não encomenda pacotes de cigarros em valor correspondente, no mínimo, à média das últimas semanas anteriores fica sem receber o produto. Muitos botecos estão vendendo apenas as marcas da concorrente, Phillip Morris, ou ficando de prateleira vazia.

Fecha a cortina
Não são somente os pobres que amedrontam a cúpula dos financistas mundiais, a ponto de levar FMI e Bird a ensaiarem um discurso antipobreza. As manifestações de ONGs contra a globalização, em Praga, fizeram a reunião entre as duas instituições terminar um dia antes do previsto. Malan, ainda não recuperado de manifestações semelhantes em Seattle, nem foi ao Centro de Congressos ontem. Seu subordinado no Ministério da Fazenda, Marcos Caramuru, seguiu o exemplo. Uma reunião do Mercosul durou apenas 15 minutos. Acabou quando foram avisados que os protestos seriam reiniciados.

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Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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