A fuga de Fujimore

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O desenlace final dos governos autoritários que se prolongaram no poder e acabaram envolvidos por uma onda incontrolável de inimigos, sempre foi uma operação difícil; “in extremis” há  dois obstáculos a superar pelos até então detentores do poder: primeiro, a saída ilesa do governante e sua família, segundo a proteção de seus fiéis partidários, também visados pela fúria da oposição que sobe delirante ao poder.
Os exemplos são muitos. Aqui na América Latina tivemos, entre outros, o caso de Trujillo, na República Dominicana, que acabou assassinado antes que tivesse tempo para escapar; Somoza, na Nicarágua, que teve que fugir às pressas (acabou assassinado no seu exílio no Paraguai) entregando os seus mais fiéis colaboradores à multidão irada; Peres Jimenez, na Venezuela, escapou com dificuldade para os Estados Unidos.
Outros, pressentindo o fim trágico, prepararam uma saída protegida pelos seus partidários que ainda dispunham de poder de contenção dos adversários vitoriosos, como foram os casos de Stroessner e Pinochet.
Conhecendo história o ditador Fidel Castro, 40 anos de ditadura sanguinária, um milhão de ferrenhos inimigos exilados na Florida, se tiver alguma sensibilidade, há de sentir calafrios ao pensar o que poderá vir a acontecer no final de seu governo.
O peruano Fujimori nos últimos meses, sentiu aproximar o epílogo desastroso de seus 10 anos de governo. Depois de ter tido um bom começo – controlou a inflação galopamante, derrotou a organização terrorista Sendero Luminoso, obteve sucesso diplomático na paz com o Equador, venceu por expressiva maioria dois pleitos presidenciais -, resolveu se reeleger para um terceiro mandato. Para conseguir este terceiro mandato teve que subornar parlamentares para alterar a Constituição e alcançou uma vitória eleitoral apertada e contestada por fraudulenta. Desde aí, passou a enfrentar crescente oposição acompanhada por contínuos movimentos populares de greves, protestos violentos e ameaças. Por último a oposição venceu as eleições parlamentares e passou a ter maioria no Congresso elegendo Presidente da Câmara dos Deputados o líder oposicionista Valentin Paniagua.
Supomos nós que, acossado por uma oposição popular violentíssima, sentindo enfraquecido o apoio militar com que sempre contou em virtude da divisão causada pelo escândalo do general Montesinos, sentiu-se perdido. Aproveitando que a lei japonesa lhe favorece uma opção de nacionalidade, resolveu a pretexto de obter empréstimo, viajar para Tóquio, e lá se encontrando evitou a hipótese de uma fuga precipitada e arriscada do país dali mesmo renunciando a Presidência e ali permanecendo. Sua renúncia não foi aceita pelo Congresso que o considerou deposto e seus colaboradores mais próximos o acusam de abandoná-los “às feras”.
O Congresso elegeu Presidente da República interino o seu Presidente, Valentin Paniagua que deverá governar o Peru até as próximas eleições, em julho do ano que vem. Paniagua promete uma transição sem ódios, de conciliação nacional, e para isto convidou para 1º Ministro Javier Peres de Cuellar, figura de reconhecido prestígio internacional pois que exerceu, durante dez anos, as elevadas funções de Secretário Geral da ONU.

Carlos de Meira Mattos
General Reformado do Exército e Conselheiro da ESG.

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