A guerra dos drones

Por Edoardo Pacelli.

Opinião / 15:14 - 14 de fev de 2020

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O presidente dos EUA subiu à Casa Branca prometendo a seus eleitores que acabaria com as endless wars: as guerras sem fim. Trump percebeu que não pode fazê-lo tão rapidamente como esperava. São muitos os interesses, muitas as articulações e, sobretudo, as dificuldades de gerenciar amigos e inimigos durante o retiro estratégico das tropas. Mas Trump pode mostrar, para seus cidadãos e inimigos, que pode lutar, mesmo sem usar o seu próprio exército.

A mudança de tipos de conflitos na Ásia Central e no Oriente Médio, o nascimento do Estado Islâmico e a presença de outras forças no campo mudaram a estratégia da CIA e do Pentágono. E os drones – sofisticados, cirúrgicos e, sobretudo, sem vítimas entre os soldados norte-americanos – tornaram-se a arma favorita.

Daí a decisão de aumentar o uso de drones e o número de operações de forças especiais, mas, acima de tudo, a necessidade de mostrar a eficácia dessa escolha. Necessidade manifestada por, pelo menos, três mortes excelentes: Abu Bakr al Baghdadi, Qasem Soleimani e Qasim al Rimi, líder da Al Qaeda na Península Arábica. Três mortes que, para Trump, não representam apenas três troféus de guerra, a serem expostos em seu mandato presidencial, mas, também, três símbolos representando o que os Estados Unidos querem agora.

 

Sofisticados, cirúrgicos e sem

vítimas entre os soldados norte-americanos

 

O Estado Islâmico, Isis, em seus ramos do Oriente Médio e da África, sofreu imediatamente a guerra dos drones. Trump entendeu que trazer a morte dos líderes do terror ao público tem dois efeitos: atingir o público, mas, ao mesmo tempo, seus inimigos.

É claro que essas organizações terroristas têm uma rede, pela qual a morte de um chefe não indica seu colapso. Mas decapitar uma rede forçando uma mudança de estratégia para todo o Estado Islâmico ainda é um resultado importante. Um resultado que também deve ser combinado com o sentimento de opressão e ameaça às quais os líderes das principais células do terrorismo são constantemente colocados. Não se quer afirmar, com isso, que essa seja uma estratégia vencedora; mas é certamente uma tática que traz a desorganização dentro de estruturas que buscam sua própria força da sua organização hierárquica.

One shot, one kill. Ali Awni al Harzi, Tariq al Harzi, Abu Muslim al Turkmani, Jihadi John, Junaid Hussain, Abu Muhammad al Adnani. Estes são os nomes dos líderes do Isis afetados pelos drones norte-americanos, no Iraque e na Síria, de 2015 até hoje.

Em 2015, quando o Estado Islâmico se estendeu de Mosul a Raqqa, as aeronaves dos EUA atingiram os chefes das filiais locais do Daesh, antes de matar o califa Abu Bakr al Baghdadi, com a blitz de 2019. A guerra contra o Isis ocorreu, quase imediatamente, com a ajuda de aeronaves não tripuladas. Para os Estados Unidos, era uma maneira de evitar mortes entre seus soldados, após o desastre das guerras no Afeganistão e no Iraque, mas serviu, igualmente, para mostrar uma técnica diferente de guerra.

Para evitar o envio de tropas, pondo em perigo seus homens, e, de igual modo, visando demonstrar que eles, os norte-americanos, podem atacar em qualquer lugar e qualquer pessoa em um território controlado por seus oponentes, a Defesa dos EUA preferiu uma abordagem cirúrgica, visando, ao mesmo tempo, criar pressão constante nos inimigos.

Recentemente, Trump elevou o nível de assassinatos direcionados, atingindo além do perímetro das organizações terroristas. A morte do general Soleimani quebrou uma espécie de tabu do Pentágono e da CIA, que não pensavam atingir a cabeça de um exército oponente com o qual não há guerra formal em andamento.

Mas, se o assassinato de Soleimani deixou óbvia a importância que Donald Trump dá a esse tipo de operação, mesmo ao custo de atingir o muro da guerra contra o terrorismo, também é verdade que isso não o distraiu das operações contra os líderes, locais e não, da Al Qaeda e do Estado Islâmico.

De fato, o caminho iniciado com Barack Obama (além dos casos raros anteriores às duas últimas administrações) é um sinal de como a guerra travada com drones é essencial para os Estados Unidos atingirem indivíduos ou células específicas na guerra contra o terror.

E não é por acaso que o presidente norte-americano quis anunciar o assassinato de Al Rimi, líder da Al Qaeda no Iêmen, até mesmo no seu discurso após a absolvição do impeachment: um sinal muito relevante da importância dada pela Casa Branca a esse tipo de ataque.

Edoardo Pacelli

Jornalista, ex-diretor de pesquisa do CNR (Itália), é editor da revista Italiamiga.

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