A história russa se repete…

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Vladimir Putin (Foto: divulgação)
Vladimir Putin (Foto: divulgação)

Putin teria cometido o grave erro de reagrupar seus oponentes, ressuscitando a Otan

 

O grande erro estratégico de Putin foi o de ter errado as avaliações sobre a real capacidade de reação do seu adversário. Segundo a história, as guerras começam porque vários chefes de Estado ou seus comandantes acreditam em, pelo menos, três princípios: primeiro, a guerra será comparativamente curta; segundo, a guerra terminará com uma vitória para o nosso lado; terceiro, o custo da guerra, em termos de baixas militares e civis e perdas econômicas, será comparativamente pequeno em relação aos ganhos esperados. Além disso, avaliações certas dos objetivos e capacidades do inimigo, quando são feitas, são, frequentemente, obtusas e baseadas em informações desatualizadas ou em interpretações tendenciosas.

Revisitando a história da Rússia, em 1904, o czar Nicolau II autorizou uma guerra contra o Japão, com a expectativa de que o Japão teria sido derrotado, rapidamente, em terra e no mar. A inesperada derrota da Rússia, pelo Japão, desencadeou revolta em São Petersburgo, em 1905. Embora a revolta tenha sido reprimida, expôs a fragilidade do regime czarista. Em 1917, em meio às tensões da Primeira Guerra Mundial, desmoronou: primeiro, com a abdicação do czar, em favor do Governo Kerensky; e, segundo, na revolução bolchevique, de novembro daquele ano.

Vladimir Putin não é Nicolau II. Até 2022, ele enfatizou o que os escritores ocidentais chamaram de “guerra de zona cinzenta” ou “guerra liminar”, na qual o poder militar é usado para apoiar objetivos políticos e vice-versa. Seus principais objetivos eram desestabilizar os ex-estados soviéticos, esculpindo enclaves de território dominado pelos russos, como na Geórgia, em 2008, e na Ucrânia, em 2014.

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O uso da força da Rússia era limitado e, embora às vezes estivesse na ofensiva tática, permaneceu defensivo em seus objetivos estratégicos. O objetivo era lutar contra a ocidentalização do antigo espaço soviético, na Europa, e contra uma ordem internacional baseada em regras dominada pelos EUA que, na opinião de Putin, prejudicava a Rússia.

Como os dados estabelecidos na premissa não foram avaliados com precisão, estes, portanto, podem ser considerados erros de avaliação de Putin. As expectativas da Rússia de uma vitória relativamente rápida e barata, na Ucrânia, foram baseadas em suas avaliações parciais das capacidades militares da Ucrânia e subestimando sua liderança.

De fato, do ponto de vista da propaganda, Zelensky conseguiu reunir a resistência contra os invasores russos e reverter a situação. Em vez de fugir em segurança para outro país, como Putin esperava, Zelenskyy tornou-se um símbolo de desafio nacional ao se comunicar com líderes da Otan e de outros países, fora da Ucrânia. Enquanto a Rússia fechou a mídia independente, em um esforço para controlar sua propaganda, os ucranianos divulgaram o conflito e obtiveram apoio internacional.

Um dos problemas que impedem um acordo na Ucrânia é que tanto a Rússia quanto a Ucrânia perseguem objetivos de guerra indivisíveis: a Rússia busca o extermínio do governo democrático soberano da Ucrânia, enquanto a Ucrânia busca continuar sua existência como país. Como esses dois objetivos maximalistas são mutuamente exclusivos, na mente dos líderes de cada país, será preciso muita luta para resolver o conflito ou até mesmo gerar um impasse.

Um fato, porém, está certo. Se não havia nação ucraniana, Putin conseguiu criá-la. E se a Otan estava em ruínas, Putin a reconstituiu: deveriam dar-lhe uma medalha de honra.

Com sua decisão de invadir a Ucrânia, portanto, o líder do Kremlin teria cometido o grave erro de reagrupar seus oponentes, ressuscitando a Aliança Atlântica e isolando Moscou, internacionalmente.

 

Edoardo Pacelli é jornalista, ex-diretor de pesquisa do CNR (Itália), editor da revista Italiamiga e vice-presidente do Ideus.

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