"A história é êmula do tempo, depósito de ações,

Empresa Cidadã / 12:39 - 25 de set de 2001

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testemunha do passado e aviso do presente, advertência do porvir." (Cervantes, 1547-1616, em Dom Quixote, Cap. IX, Parte II) O desempenho social das empresas passou a ocupar rapidamente a atenção de consumidores, investidores, colaboradores e fornecedores. As dúvidas surgidas com o 11 de setembro evidenciam ainda mais a responsabilidade social de empresas. Para alguns, as empresas-cidadãs tornaram-se mais importantes na construção de uma nova ordem que, evidencia-se na opinião pública, é condição para a correção das desigualdades que afastam os povos das várias nacionalidades e, mesmo dentro dos países, geram um forte contraste na divisão da renda e da riqueza. O papel das empresas socialmente responsáveis é, portanto, mais importante neste momento de reconhecimento de que a história está viva. Para outros, que não distinguem nada além de publicidade nas manifestações de cidadania empresarial, a perspectiva de uma crise derivada dos acontecimentos do 11 de setembro inibirá os investimentos em trabalho ético, projetos sociais e ambientais, encerrando este ciclo de revisão da responsabilidade das empresas na construção da cidadania e da sociedade. Uma luz sobre esta dúvida pode ser descortinada pela própria evolução do conceito de cidadania empresarial. Em um passado um pouco mais distante, já se encontra na Constituição de Weimar (Alemanha, 1929) referência à função social da propriedade. A partir dos anos 60, no entanto, ganham impulso as condições que propiciarão o estágio atual de consciência sobre a importância e responsabilidade dos vários agentes sociais numa atuação mais incisiva no processo de construção da sociedade, associada ao bem comum. Os anos 60 foram marcados pelo movimento pelos direitos civis nos EUA e as manifestações pioneiras de políticas de ação afirmativa, sobretudo no que refere à integração racial, como o busing, acesso de negros ao transporte escolar, no período do governo Kennedy, as leis dos direitos civis de 1964 1965, as manifestações pela paz a partir de 1967, as primeiras ações de defesa de direitos de consumidores lideradas por Ralph Nader. Na Europa, exemplos como estes somaram-se às manifestações de maio de 68 na França e ao surgimento dos verdes como movimento político de expressão, inaugurando uma nova era de responsabilidade coletiva. A partir de meados dos anos 70, o novo cenário foi revigorado pelos dois choques do petróleo (1973 e 1979), o choque dos juros internacionais de 82, o esgotamento da capacidade dos governos de financiarem políticas públicas como faziam até então, mais uma crise de valores temperada pelo repúdio popular, sobretudo nos EUA, às empresas que se beneficiavam com a guerra do Vietnam. Junto com o peso político ascendente dos verdes, tudo isso levou muitas empresas aos ajustes estruturais para sobrevivência no novo ambiente de negócios e a uma maior consciência das conseqüências da atividade produtiva. Daí para a frente, novas ferramentas, em pleno processo de desenvolvimento foram sendo introduzidas no dia a dia das empresas, com a finalidade de ressaltar a importância da função social, lado a lado com a função econômica. Um marco neste conjunto de instrumentos é o balanço social, adotado inicialmente na França, em 1977, de forma obrigatória para as empresas com mais de 700 empregados e mais tarde para as empresas com mais de 350 empregados. Após um hiato de quase uma década, caracterizada pela hegemonia absoluta dos EUA no aspecto militar, com o fim da Guerra Fria e esfacelamento da União Soviética, no aspecto econômico, com a instabilidade gerada pela reorganização da comunidade européia e construção do euro, além do estiolamento da economia japonesa, o cenário delineado a partir dos anos 60, em que foram incubados os conceitos mais recentes de responsabilidade social, parece recrudescer. Embora seja cedo para tirar conclusões, após o 11 de setembro, o mundo parece mais próximo do período em que o papel das instituições na construção da cidadania foi mais questionado. Em relação aos tempos de pioneirismo da cidadania empresarial, alguns avanços foram registrados e poderão demarrar um período de novas conquistas ainda mais incisivas. A iniciativa de empresas em atividades econômicas de preservação, o desenvolvimento do terceiro setor, a assimilação política dos verdes e a institucionalização do movimento de defesa dos direitos dos consumidores são alguns exemplos desses avanços. De resto, os desafios cresceram tanto que conquistas mais incisivas tornaram-se questão de sobrevivência. Diante do agravamento das disparidades sociais e da dramaticidade que o risco ambiental atingiu - casos do esgotamento de recursos naturais como a água, do aquecimento global, dos danos à biodiversidade e à camada de ozônio - nada menos do que muito mais do que já foi feito é inaceitável. Paulo Márcio de Mello Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Correio eletrônico: paulomm@alternex.com.br

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