"A ignorância afirma ou nega veementemente, a ciência duvida"

Empresa Cidadã / 13:24 - 18 de set de 2001

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor

(Voltaire, 1694-1778) Afirmar que uma empresa é uma empresa-cidadã ou não é comum no debate sobre a responsabilidade social. A empresa deve ser avaliada pelo seu processo de gestão ou pelos bens que produz? Deve ser encarada pelas práticas de mercado, nem sempre nobres, ou pelo apoio a projetos sociais? As relações trabalhistas, considerando remuneração e benefícios, são mais ou menos importantes do que as relações ambientais? Se faz tudo corretamente, a empresa deve divulgar a sua ação social ou guardar para si? Além de divulgar, deve orientar as suas ações sociais e ambientais por pesquisas do interesse do consumidor? Existe uma incompatibilidade entre a busca do bom e do bem? As mensagens publicitárias da organização devem se trazer sempre um conteúdo ético? A ética compreende valores comuns a todos ou admite-se alguma flexibilidade na sua aplicação? O debate, muitas vezes caloroso, deixa de lado considerações sobre o processo dinâmico representado pelo exercício da responsabilidade social. Cada estágio alcançado deve ser visto como um ponto de partida para um nível mais intenso de consciência na busca do bem comum. Para suavizar a discussão, trazemos de volta o decálogo bem humorado da empresa cidadã, o que também atende a alguns pedidos. 1 - O exercício da responsabilidade social é complexo e dá trabalho. Nenhuma empresa chega a ser cidadã sem comprometer colaboradores, consumidores, vizinhos e comunidade, governo e fornecedores. 2 - O exercício da cidadania empresarial difere do exercício do bom samaritano ou do bom-mocismo. Empresa-cidadã não é a empresa que se limita à filantropia, muito menos à pilantropia. 3 - O exercício da cidadania empresarial não é para levar nenhuma empresa para o céu. Aliás, não há registro de empresas que tenham ido para o céu. 4 - Mas a empresa que insistir em entrar no céu vai precisar de bons depoimentos a seu favor, no julgamento final. Logo, falar das boas ações realizadas, ajuda. 5 - Empresas fazem erros; erros não devem fazer as empresas. Erros antes cometidos não devem servir de razão para erros do futuro. 6 - A empresa-cidadã é o que pensa e diz que é. Toda empresa tem um caráter, chamado com mais freqüência de cultura organizacional. Esse caráter move a empresa na busca de sua missão. Felizmente, para alguns casos, caráter está sempre em formação e pode ser regenerado. 7 - Des-matar não significa ressuscitar. Nem todo dano pode ser desfeito, seja social ou ambiental. Há empresas que acham que desmatar é o contrário de matar. Sobretudo as empresas que atuam em negócios de risco ambiental, devem fazer da preservação também um negócio, atuando a favor da vida. 8 - O exercício da cidadania empresarial tem custo. Na empresa, custo é o nome da distância que há entre intenção e realização. Muitas vezes, os bons propósitos sucumbem diante da primeira conta a pagar. 9 - O exercício da responsabilidade social tem receita. Nem só de custos é feita cidadania empresarial. Ela contribui para a efetivação de cenários mais favoráveis à realização dos negócios, para a atração de investidores, para a fidelização dos consumidores, para a satisfação e produtividade dos colabores, todos fatores propícios ao incremento das receitas. 10 - O exercício da cidadania empresarial estica, encolhe, pode e deve ser medido e vale pelo uso que dele se faz, não pelo tamanho que tem. O ambiente da empresa-cidadã é dinâmico, nele o seu desempenho se transforma e, por isso, deve ser permanentemente medido. Além disso, não é o valor do investimento feito que assegura a qualidade dos projetos. Iniciativas de custo menor podem ter repercussão social maior do que iniciativas de custo grande. QUALIDADE DE EMPRESA-CIDADÃ A ABB, com fábricas no Brasil em São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Bahia e Rio de Janeiro, onde trabalham 6 mil pessoas, opera em diversos setores, entre os quais os de engenharia, petroquímica, serviços financeiros e produtos de consumo. Através do seu programa antitabagista - "Diga não ao tabaco" - economizou R$ 67 mil, em três anos. A empresa, gigante multinacional de mais de 160 mil empregados, calcula que cada trabalhador que deixa de fumar gera economia direta de R$ 800 ao ano, sem falar no aumento de produtividade, licenças médicas ou morte prematura. Cerca de R$ 12 mil foram investidos desde o início do programa, que já conseguiu uma redução no contingente de fumantes de 25% para 18%. Paulo Márcio de Mello Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Correio eletrônico: paulomm@alternex.com.br

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor