A importância da água diante do coronavírus

No Brasil, o quadro é de muitas pessoas sem água suficiente para uso pessoal e doméstico.

Meio Ambiente / 16:15 - 27 de mar de 2020

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Diante de pandemias como a que enfrentamos sobressai a necessidade de acesso igual e integral a esse importante bem ambiental, reconhecido como um bem público e direito humano fundamental de uso comum. Embora no Brasil a maioria da população tenha acesso à água, cerca de 35 milhões de brasileiros ainda não possuem água tratada e mais de 100 milhões não têm saneamento básico (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento – SNIS2018).

O acesso igual e seguro à água potável foi um dos desafios impostos pela Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, mas está longe de ser alcançado. Muitos esforços e compromissos vêm sendo feitos e novas formas de gestão e incentivos foram a temática do 8º Fórum Mundial da Água realizado em março de 2018 em Brasília (FMA 2018). Autoridades de todo o mundo ressaltaram a importância e o compromisso com ações locais, regionais e nacionais para a proteção dos recursos hídricos e o direito de acesso por toda a população. Também o Fórum Alternativo Mundial da Água (FAMA 2018), por meio dos movimentos populares e organizações não governamentais, enfatizou o reconhecimento da água como um direito humano que pertence a todos e a importância do marco regulatório de saneamento básico “garantir a todos a água e o saneamento básico de forma universal e integral”.

Faz pouco a população urbana de grandes estados brasileiros sentiu, diante da estiagem, o que é racionamento, redução da oferta de água e o que isso significa na rotina da cidade. Passada a crise, a normalidade revela que não houve reação proporcional à gravidade da situação. Não houve qualquer melhora na gestão dos recursos hídricos e na qualidade de vida, especialmente para os mais pobres.

O esvaziamento do campo e inchaço das cidades aumenta a cada dia a demanda nos grandes centros urbanos, e muitos usuários não dispõem da água para uso doméstico. Grande parte da população pobre das cidades não mais dispõe de córregos naturais, pois estes estão poluídos ou foram asfaltados, não possuem água potável ou mesmo saneamento básico da rede pública. Isso significa que há uma urgência hídrica, que se não for solucionada, pode determinar, especialmente em situação de calamidade pública como a que passamos, a perda de muitas vidas.

No dia 22 de março, foi celebrado o Dia Mundial da Água, e a sua essencialidade foi demonstrada pela OMS também para prevenir a propagação da Covid-19. Não obstante, diante do quadro de tantas pessoas sem água suficiente para uso pessoal e doméstico, evidencia-se no Brasil completo descomprometimento com as diretrizes internacionais e nacionais da Política Nacional de Recursos Hídricos (Lei 9.433/1997) que prevê o “princípio da não exclusão dos benefícios”, e por isso a sua fruição é assegurada a todos.

Não apenas as autoridades são chamadas a adotar medidas urgentes de abastecimento, mas cada um pode fazer a sua parte para proteger vidas e proporcionar maior acesso à água. Corrigir vazamentos e o consumo excessivo, não lançar lixo nos rios e mares, não jogar resto de alimentos ou óleo em pias, ralos ou vasos sanitários, desfazer ligações clandestinas na rede de escoamento de água da chuva e coletora de esgoto, são exemplos de tarefas simples e eficazes. O custo do fornecimento de água potável poderá diminuir se houver mudança na cultura do desperdício e de maus usos favorecendo para que a água chegue a muitos que ainda não a possuem.

Afinal, a pandemia do coronavírus está sendo enfrentada com medidas de proteção e higiene pessoal, mas também por meio da solidariedade, o que vem demonstrando que há muito mais a fazer além de “lavar as mãos”.

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