Conversamos com Beto Saadia, economista-chefe da Nomos, sobre a inflação de 0,70% registrada em fevereiro. No ano, o IPCA acumula alta de 1,03%, e nos últimos doze meses, 3,81%
Qual a sua avaliação sobre a inflação em fevereiro de 2026?
Há duas semanas, alguns componentes do IPCA-15 já haviam dado um susto, o que fez com que a inflação de fevereiro ficasse com um piso muito maior. Esse susto veio, principalmente, de passagens aéreas, mas esse é um item pelo qual o Banco Central não tem tanto “carinho”, pois ele não faz parte do núcleo da inflação.
O mês de fevereiro é caracterizado por um resquício de aumento de transporte público e pelo aumento das mensalidades escolares. O que eu estou vendo pouca gente falar é que, ao longo dos últimos anos, as mensalidades escolares estão subindo mais que a inflação, sendo que esse movimento se deve a alguns fatores.
Como educação é um serviço intensivo em mão de obra, o aumento das mensalidades escolares se deu, de forma mais proeminente, nos cursos de menor idade, como o ensino básico e o ensino fundamental. Além disso, os dissídios dos professores foram relativamente altos, e a inadimplência escolar subiu. Essa inadimplência fez com que os estabelecimentos escolares repassassem essa recomposição de margem para os pais adimplentes. Dessa forma, o item educação teve uma característica específica que não é apenas sazonal, mas sim estrutural.
A inflação de fevereiro veio um pouco acima do esperado, preocupando, principalmente, naquilo que não está dando trégua: serviços. Esse vai ser mais um desafio para que o Banco Central comece o ciclo de queda da Selic em um período que não favorece uma inflação que deu boas notícias no ano passado: alimentos. Isso porque nós estamos com clima muito mais instável e um calor muito forte, o que tem gerado um aumento no preço dos alimentos. E eu nem falei da guerra no Golfo Pérsico.
Como o atual conflito no Golfo Pérsico pode afetar as expectativas de inflação no Brasil?
Isso vai se dar através de dois componentes. O primeiro, que é mais óbvio, é o preço do petróleo. Isso depende, em parte, de a Petrobras ser independente e fazer os reajustes necessários, em conformidade com a sua política, para manter os preços próximos ao mercado internacional. Caso isso aconteça, nós vamos ter um impacto muito relevante. Segundo as nossas estimativas, esse impacto seria de 0,5% no IPCA anual. Isso porque combustíveis mais caros deixariam os transportes mais caros, o que afetaria a cadeia como um todo.
O segundo componente é formado pelos produtos que transitam pela região, como, principalmente, fertilizantes e defensivos agrícolas. Esses produtos, que já estão caros, vão bater no IPCA de março. Como eles são importados de diferentes países do Oriente Médio, o frete marítimo vai ficar mais caro, independente de passar ou não pelo estreito de Ormuz. Sem contar que esse processo também vai impactar no preço dos alimentos, que, como comentei, passam por um período climático ruim. Esse processo pode afetar, principalmente, os alimentos mais perecíveis, como a soja e o milho.
Essa guerra tem duas incertezas: saber quando ela vai terminar e que Irã vai surgir após a guerra, se secular, mais pró-ocidente ou mais radical. Além dessas duas incertezas, existe uma terceira incerteza, que nem é tão incerteza assim, sobre se os preços do petróleo vão continuar altos após o arrefecimento da guerra. Isso porque uma coisa é risco e outra é percepção de risco. Por exemplo, como a percepção de risco vai continuar, os seguros dos fretes marítimos vão continuar mais altos. Independente do patamar onde o petróleo se estabilize, não existe a percepção de que ele não vai se manter alto por muito tempo, o que vai se traduzir em uma inflação mais alta, sendo que, para mim, essa inflação mais alta já está dada.
Como a Selic já está muito alta e restritiva, ela, de alguma forma, absorveria esses riscos. Com relação ao ciclo de queda, ele deve se manter, mas ele deve acontecer em uma magnitude muito menor do que se estava esperando em fevereiro. Ou seja, nós devemos ter uma queda inicial de 0,25 ponto percentual com a Selic chegando ao final do ano em 13%.
O conflito já está afetando as expectativas de inflação?
Curiosamente, ele não afetou as expectativas do último Focus, mas isso deve acontecer no boletim que vai ser divulgado na próxima segunda-feira. Isso porque o mercado estava achando que esse conflito ia ser igual à operação feita pelos Estados Unidos na Venezuela ou à Guerra dos Doze Dias do ano passado entre Israel e Irã, sendo que ele já está entendendo que essa guerra vai durar algumas semanas. Como essas informações já estão sendo colocadas nas projeções, isso vai se refletir no próximo Focus.
Ou seja, na sua percepção, já podemos ter novidades no Copom da próxima semana?
Sim, já podemos, tanto que isso já está acontecendo nos contratos de derivativos de juros. Antes, o mercado estava convergindo para uma queda de 0,50 ponto percentual, mas agora ele já está se posicionando para uma queda de 0,25 ponto percentual. Se o Banco Central vier com uma queda de 0,50 ponto percentual, o mercado pode reagir mal, pois isso seria uma sinalização ruim de falta de rigor com a situação.
Caso o conflito comece a mexer com as expectativas, a Selic a 15% poderia absorver uma inflação até que nível?
Até 5% ao ano. Quando o Banco central aumentou a Selic para 15% no ano passado, as expectativas de inflação estavam girando em torno de 5%, mas a inflação de 2025 acabou sendo muito melhor por conta de uma série de fatores que são impossíveis de serem previstos, como o clima e o real supervalorizado. Como a inflação de 2025 ficou abaixo do que o mercado projetava, começou a se falar na queda da Selic, mas agora veio a guerra.
Caso o conflito se encerre rapidamente e as expectativas não aumentem, como a inflação deve se comportar em 2026?
Eu não acredito no encerramento do conflito, mas na sua desaceleração com a percepção de risco seguindo alta. Ou seja, mesmo que o conflito arrefeça, isso vai afetar a inflação, que vai permanecer em um patamar mais alto. Com isso, a inflação pode subir 0,50 ponto percentual, com o IPCA fechando 2026 entre 4,5% e 5%.

















