A inflação de março de 0,88%

Segundo Mônica Araújo, economista-chefe da InvestSmart XP, a inflação de março veio acima do esperado pelo mercado, sendo que ela já vinha pressionada antes mesmo do conflito.

419
Mônica Araújo, economista-chefe da InvestSmart XP
Mônica Araújo (foto de Eduardo Pinto, divulgação InvestSmart XP)

Conversamos com Mônica Araújo, economista-chefe da InvestSmart XP, sobre a inflação de 0,88% registrada em março de 2026. No ano, o IPCA acumula alta de 1,92%, e nos últimos 12 meses, 4,14%. Em março de 2025, a variação havia sido de 0,56%.

Qual a sua avaliação sobre a inflação de março de 2026?

A inflação veio acima do que o mercado estava esperando, mesmo considerando que já haveria algum tipo de efeito causado pela alta dos preços dos combustíveis.

De uma forma geral, como você está vendo o comportamento da inflação?

Nós estamos vendo um choque de oferta que tem impacto relevante na inflação de curto prazo, sendo que esse choque, dependendo da sua intensidade e da sua duração, pode reverberar na inflação de médio prazo. Isso faz com que tenhamos que acompanhar de perto não só a solução do cessar-fogo, mas também a reabertura, com total segurança, do Estreito de Ormuz, o que normalizaria o fluxo do petróleo e de outros produtos, como gás natural e fertilizantes, e possibilitaria a reprecificação da trajetória da inflação.

Vale lembrar que como várias infraestruturas da região foram impactadas, nós precisamos ver como vai se dar a recuperação desse fluxo. Provavelmente, as projeções de inflação não vão ter uma queda muito significativa em função da recuperação dessas infraestruturas, mas o mais importante é que não haja adicionais de preço a frente.

Espaço Publicitáriocnseg

Cabe destacar que nós já estávamos com uma inflação pressionada antes do conflito. Em 2025, nós tivemos os benefícios da supersafra, queda nos preços das commodities e do câmbio mais apreciado, que favoreceram os grupos de bens industriais e alimentos. Para 2026, nós temos apenas o benefício do câmbio, já que o real segue valorizado frente ao dólar, mas os preços de algumas commodities já estão um pouco mais altos. É por isso que a inflação de fevereiro e de março já vieram mais altas.

Como você está vendo a questão dos preços dos combustíveis no Brasil?

Como o Brasil não produz 100% dos derivados que consome, ele precisa importar essa diferença. Quando nós importamos um derivado, cujo preço subiu de forma relevante no mercado internacional, isso tem impacto no preço desse derivado no mercado doméstico. Para minimizar os efeitos para o consumidor final, o governo vem adotando algumas medidas, e a Petrobras tem adotado uma postura cautelosa de não repassar toda a volatilidade, tentando encontrar um patamar de sustentação. O ponto é que esse problema não tem jeito.

Como nós importamos uma parte do que consumimos, os preços dos combustíveis vão aumentar, mas como nós temos uma produção doméstica significativa e a política da Petrobras de não repasse da volatilidade internacional, nós tivemos uma alta dos preços dos combustíveis menor do que aconteceu em mercados que são completamente abertos.

Dependendo do que acontecer no conflito, nós ainda devemos ter um resquício de impacto na inflação vindo dos aumentos dos combustíveis e dos seus efeitos secundários nos preços da economia como um todo.

Dada a questão dos fertilizantes, podemos ter uma alta da inflação de alimentos no segundo semestre?

Sim, podemos. Hoje nós temos equalizada a necessidade de importação dos principais produtos para a produção de fertilizantes para as safras do primeiro semestre, mas para as safras do segundo semestre, cujo plantio vai ser iniciado em agosto, nós podemos ter uma redução na oferta de fertilizantes caso a paralisação na região do Oriente Médio continue, o que impactaria nos seus preços.

Com isso, mesmo que tenhamos uma super safra, o seu custo pode aumentar, o que seria repassado para o preço dos alimentos. Vale lembrar que o governo vem avaliando algumas medidas que podem ser adotadas para minimizar esses impactos, mas se esse cenário se configurar, nós podemos ter um aumento nos preços dos alimentos no segundo semestre.

Qual a sua expectativa para o Copom do final deste mês?

Na minha opinião, o Copom vai manter a redução da Selic em 0,25%. Eu não acredito que a inflação de março vai mudar essa trajetória, mas caso o cenário internacional traga uma volatilidade maior, o balanço de risco, que o Copom considerava equilibrado, pode ficar desequilibrado. Com isso, o comitê pode pesar um pouco mais nas questões negativas que podem influenciar as expectativas dos agentes econômicos sobre a inflação futura, reduzindo o ritmo de baixa da Selic para avaliar o impacto efetivo do cenário.

O que pode mudar é o comunicado, ou seja, se o Copom vai endurecer mais e indicar algum tipo de paralisação para as próximas reuniões, mas, a princípio, a Selic possui uma gordura e o Banco Central pode manter a redução de 0,25% para as próximas reuniões.

Considerando a nossa conversa, você gostaria de acrescentar algum ponto à sua entrevista?

Nesta sexta também saiu a inflação dos Estados Unidos, que já mostrou o impacto da mudança de patamar do preço dos combustíveis. Apesar do núcleo ainda ter vindo baixo, a inflação cheia, que tem os componentes mais importantes para o seu acompanhamento, veio muito forte devido ao impacto da gasolina.

Independente disso, o mercado ainda considera que o Fed pode reduzir a taxa de juros americana, desde que o cenário fique um pouco mais tranquilo e tenhamos a volta de alguma normalidade no fluxo dos principais produtos produzidos no Oriente Médio.

O mais importante para o Banco Central é o que Fed e os principais bancos centrais do mundo vão fazer diante desse choque de oferta. É fundamental acompanhar esse processo, pois isso impacta na reprecificação de ativos no Brasil.

Siga o canal \"Monitor Mercantil\" no WhatsApp:cnseg