A inserção da Argentina na Otan

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A inusitada pretensão da República Argentina de ingressar na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), como membro efetivo, foi prontamente rechaçada. O governo argentino saiu bastante desgastado nesse ingrato e infeliz episódio que colocou o país em uma posição muito incômoda ante o mundo, principalmente em relação aos seus parceiros do Mercosul e demais condôminos do cenário geopolítico sul-americano.
É surpreendente que as autoridades argentinas tenham dado um passo tão significativo e de tamanha relevância – como a proposição para o ingresso da Argentina na maior aliança militar existente no mundo – sem efetuar, previamente, estudos e consultas diplomáticas, técnicas e institucionais que lhes permitissem conhecer, com razoável grau de certeza, o risco que poderia correr uma solicitação dessa natureza.
Fontes oficiais do governo argentino têm proporcionado versões desencontradas a respeito da forma com que foi gerada a decisão de solicitar a incorporação da Argentina na Otan, como membro permanente. Um setor governamental assegura que o trâmite foi idealizado e impulsionado pela Secretaria de Planejamento Estratégico e que a Chancelaria e o Ministério da Defesa não foram consultados em nenhum momento. Outras fontes, ao contrário, afirmam que o tema foi amplamente debatido em todos as áreas do governo e que foi examinado, inclusive, em reunião de gabinete, a nível governamental.
Tudo indica que a iniciativa surgiu como conseqüência de uma análise sobre as supostas novas condições que haviam se apresentado na Otan, como resultado da guerra no Kosovo. Pensou-se que a Argentina – que já ostentava o título de aliado extra-Otan (afago que lhe fora feito pelo presidente Bill Clinton) – poderia aspirar a integrar-se, com maior realce, nessa poderosa aliança. Esses são os fatores que parecem ter determinado o açodamento da redação das notas que o presidente Carlos Menem remeteu às autoridades da Otan e ao presidente dos Estados Unidos, para solicitar, formalmente, a incorporação do país como membro pleno da organização.
A resposta a essa preposição tornou-se do conhecimento de todos: o então secretário-geral da Otan, Javier Solanas, dirigiu-se por escrito ao primeiro mandatário argentino para comunicar-lhe que sua solicitação havia sido rechaçada. A nota enfatiza que somente podem pertencer à organização os países situados no Atlântico Norte e que a Argentina, por ser um país situado no Atlântico Sul, não atende a essa premissa básica.
É simplesmente surpreendente que o governo argentino tenha dado esse passo em falso, sem meditar sobre as possíveis conseqüências e dissabores que poderiam advir ao tomar uma decisão dessa magnitude. Parece incompreensível que um assunto dessa natureza tenha sido manejado com tão pouca lucidez e ingenuidade e, sobretudo, que o rechaço pela Otan tenha se fundamentado em considerações tão óbvias que, de certo modo, provocou um enfretamento entre os setores internos do governo argentino e promoveu, com atitude desse jaez, um incidente diplomático ao criar um clima de desconfiança com os vizinhos do continente.
Seria de bom alvitre que antes de efetuar um pedido dessa grandeza, a Argentina realizasse uma prévia consulta aos países sócios do Mercosul para inteirar-se da opinião dos mesmos. Esta atitude seria sumamente importante para referendar (ou não) a ação do governo argentino nessa empreitada, principalmente neste delicado momento que atravessa o processo de integração regional.
Dentro de uma visão mais ampla, esse indesejado e desagradável rechaço que sofreu a Argentina deve servir para uma profunda reflexão sobre a necessidade de que a política de alianças que o país adota, no campo internacional, seja encarada com responsabilidade e prudência. Os argentinos devem evitar, nessa área, qualquer atitude que tenda para o arroubo ou para impulsos momentâneos de êxito no concerto das nações.
O campo da política externa, certamente, não é o mais adequado para ensaiar ações temerárias e audazes que nada têm a ver com o louvável esforço encerado pela Argentina, ao longo desta década, para inserir-se no cenário internacional como um país maduro, sério e confiável.

Manuel Cambeses Júnior
Coronel-aviador R/R e membro do Corpo Permanente da Escola Superior de Guerra.

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