‘A longo prazo, estaremos mortos’

Posto Ipiranga revelou a mais acabada incapacidade de reação eficaz.

Empresa Cidadã / 20:14 - 17 de mar de 2020

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Esta frase, da autoria de John Maynard Keynes (5 de junho de 1883; Cambridge-Inglaterra – 21 de abril de 1946; East Sussex) foi a bem-humorada resposta dada por ele a críticos do seu modelo, que contém a proposição de medidas de política econômica predominantemente de curto prazo.

Na crise do Covid-19, as palavras de Lord Keynes precisam ser lembradas, já que o Posto Ipiranga, atual responsável pela condução da economia do país, na crise, revelou a mais acabada incapacidade de reação eficaz e de ultrapassar o bordão que repete, repete e repete de que as reformas são a maravilha curativa das galáxias. Achou que pegaria uma carona (sem trocadilho) na crise do vírus para esfregar as caras dos congressistas nas paredes da Esplanada, levando-os a decisões insensatas.

O espetáculo de desinformação intencional visto agora só se compara ao acontecido no período da ditadura, quando do Primeiro Choque do Petróleo, em 1973. Disseram os golpistas da época que “o Brasil era uma ilha de paz em um mar de intranquilidade.” E nada fizeram para enfrentar a crise… que resultou em uma baita crise cambial.

Agora, o decór é: com as reformas, o país sara. E o país assiste à desindustrialização acelerada, a entrega, de “porteira fechada”, das riquezas duramente construídas ao longo de gerações (Petrobras, Embraer, Correios, Eletrobras, Alcântara, a Água, etc). Já vimos este filme...

 

Coleguinha’, dá um tempo

As tentativas de estelionato de informação encontram até “coleguinhas” de boa fé que caem nas armadilhas, muitas delas argumentum ad nauseam. Um caso é o do tratado com aquela nuvem que passa lá em cima. Quando ela deságua a ponto de provocar problemas, o ribeirinho que joga o lixo de qualquer jeito e o gestor que não provê saneamento nem educação pegam a média aritmética simples das medições de chuvas anteriores e tentam justificar as tragédias, através de argumentos como “choveu em um dia o mesmo que era pra chover em um mês... como se a s nuvens tivessem assinado um termo, comprometendo-se a não chover mais do que um número determinado de mm³. Além disso, são esquecidas todas as tutelas antecipadas quanto às médias. Caso do homem que tem a cabeça no forno e os pés na geladeira. Mas esta condição exdrúxula não significa que a barriga está confortável só por estar na média.

Também já deu dizerem que o PIB (esse baixinho) é a medida de tudo que é produzido pelas empresas do país no período de um ano. Se fosse assim mesmo, o PIB seria muito maior do que de fato é. Pois, ao se apurar o valor de um automóvel, por exemplo, estaria incluindo a dupla contagem. Do valor da chapa de aço utilizada para produzi-lo, quando sai da siderúrgica na forma de chapa e quando sai da montadora de autos na forma de veículo mesmo. O PIB (esse baixinho) só compreende o valor dos bens e serviços finais e não só aqueles oferecidos por empresas. Não é contabilizado o valor das matérias primas, nem dos componentes intermediários. Não é considerado ainda o valor dos serviços domésticos, feito pela “dona de casa”, o que representa uma injustificável subtração da importância desta contribuição, oferecida quase sempre por mulheres.

E mais. Nossa sociedade, competitiva no último, parece impor comparações quando dos encômios à determinada pessoa ou coletivo. Com isso, uma hipotética montanha não pode ser elogiada apenas por ser alta. Ela tem a mais alta, ou a segunda, ou até mesmo a terceira mais alta da cordilheira. Palavras que só enfatizam a competição.

Outra frequente situação diz respeito também às médias “que se danem. Não é comigo.” Aparecem em bandos quando se noticia o desemprego ou a letalidade de uma pan epidemia como este Covid-19. Aí dizem, por exemplo, o desemprego diminuiu para 11% no último trimestre de 2019. Ninguém está 11% desempregado (um braço ou uma perna desempregada?).Quem está desempregado está 100% desempregado, assim como quem contribuiu com a própria vida para uma faixa de letalidade de 3,6% (só como exemplo) da epidemia está 100% morto e não 3,6%.

E a frase de todo final de abril (fim do prazo da entrega da declaração do imposto de renda). Ganha um docinho quem nunca ouviu que “brasileiro deixa tudo para a última hora”. Deixa sim, tanto quanto o francês, o alemão, ou o inglês. Isto porque a última hora também é hora. E existe para servir tanto quanto qualquer outra hora, mesmo que o provedor do serviço não ofereça as condições necessárias por todo tempo em que o serviço deve funcionar.

 

Paulo Márcio de Mello é professor servidor público aposentado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

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