A mídia por um novo PT?

Opinião / 13:38 - 13 de fev de 2003

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Malgrado as crises internas do PT, divulgadas pela mídia a cada momento em que ocorrem, mas certamente advindas do choque natural entre a ideologia acentuadamente trabalhista do partido e a realidade de capital/trabalho e impostos de qualquer governo, e notadamente da dívida brasileira - na minha visão núcleo de toda a dialética nacional - malgrado tantos percalços, o O Globo deste último domingo e ao longo de quatro artigos despertou minha curiosidade para a convergência temática da matéria, ainda que não intencional, qual seja: a possibilidade de parto, a partir do PT atual, de um novo PT que carregasse consigo os quadros puristas e/ou radicais do PT tradicional. Como se uma domesticação do PT estivesse em curso. O primeiro destes artigos, logo à pagina 2, "O jeito Lula", lista aspectos negativos do PT em seu período inicial de governo, contrapostos à ação do presidente Lula para romper uma inação e uma paralisia que possibilitam compará-lo com a rainha da Inglaterra que reina mas não governa. Na continuidade, menciona medidas a serem anunciadas, "nenhuma de grande impacto", "mas o conjunto deve produzir o sinal desejado..." de que o governo não está parado", e de que não está apenas praticando malanismo com Palocci. Acrescenta, o artigo que "entre as medidas preparadas, algumas podem até não ser anunciadas, por não estarem muito maduras. Caso do Projeto Primeiro Emprego, outra menina-dos-olhos do presidente. As mais prováveis são pontuais, modestas e objetivas", conclui. O leitor comum como eu, que continua folheando o jornal com avidez, vai-se deparar na página 4 com outra manchete: "Casamento PT-PL causa dor de cabeça para o governo em plena lua-de-mel. Denúncias e problemas regionais marcam aliança no primeiro mês no poder." Problemas que alcançam o PTB, seção capixaba, capazes de, a médio prazo, trincar a base parlamentar de sustentação ao PT se e quando devidamente explorados pelos falcões do PFL e do PSDB. Já na página 7, sob o título "Um punhado de sal", solicita o articulista que o presidente Lula também o recolha simbolicamente, para iniciar o processo de mudanças, imitando Gandhi que, na Índia colonial proibida pelos ingleses de explorar seu próprio sal para importá-lo da metrópole, presenciou e acompanhou o gesto de seu líder que, ao recolher um punhado do sal proibido, dava o primeiro passo para a futura independência da Índia face à Inglaterra. Esqueceu-se o articulista de lembrar que o primeiro punhado de sal, Lula o recolhera nos idos de 70 quando, lutando por melhores condições aos trabalhadores do ABC, iniciava sua carreira sindical. Desde então, como Gandhi, empreendeu uma grande marcha que, queiram os deuses, nos conduzam ao alívio da dívida brasileira, herança de FHC. Por fim, nesta mesma página, sob o título "Conviver com o imperfeito", outro articulista identifica contradições entre o PT e a realidade que lhe cumpre operar, cuja derivada dialética poderia ser a perda de sua pureza ideológica da época de sua oposição ao sistema, ou mesmo de sua pureza revolucionária. O articulista relaciona as inúmeras concessões que o PT já precisou fazer em várias frentes, para assegurar um mínimo de governabilidade e, como conseqüência, atiçando o clamor de seus quadros que discordam desta postura operacional do PT. Estes quatro artigos merecem um seminário interpretativo no próprio PT. Por enquanto parecem mais uma coincidência do que uma linha editorial da grande mídia. Porque o que os conservadores de todos os matizes desejam, à semelhança do que ocorreu no Brasil com PTB, PMDB e PSDB, é a ocorrência de "rachas" partidários que provoquem o afastamento de "autênticos" e teóricos "puros", empurrados para criar novas legendas oriundas daquela em que faziam parte, na ilusão de purificar o processo e manter pura a ideologia natural, mas cujos frutos só haverão de maturar num futuro distante. Os desafios do Brasil presente, notadamente as dívidas interna e externa do país, oriundas do governo FHC no seu processo de converter rapidamente o Brasil estatal em um país capitalista e especulativo, tais desafios exigem a resposta de um PT coeso, vez que foi eleito para dialeticamente resolver esta dívida que de há muito já governa o país, como mencionei em artigo neste MM em 18/08/2000. Se o PT rachar, as chances de resolvermos nossos problemas haverão de se adiar, até o dia em que o volume da dívida o permita. Se o PT rachar, é sinal de que não está sabendo estudar e lidar com o problema brasileiro que tanto abordou em sua campanha, notadamente com a dívida, que antecipou ao capital algumas décadas de renda, infelizmente já transferida, ou ainda em contínuo processo de transferência. Paulo Guilherme Hostin Sämy Ex-conselheiro da Abamec-Rio.

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