"A natureza usa o mínimo de tudo"

Empresa Cidadã / 13:21 - 29 de mai de 2001

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(Johannes Kepler) A crise de energia tornou-se uma constante nas preocupações de todos. O impacto das possíveis medidas compensatórias, até onde se sabe, equivale ao de uma guerra. O que pode fazer agora e a longo prazo a empresa-cidadã para se engajar no esforço de superar a crise? O sentido da política econômica praticada no Brasil do real é o do deficit resistente no saldo de transações correntes, compensado pelo ingresso dos investimentos diretos externos (IED). Denominação inadequada na maior parte dos casos para a entrada de recursos meramente especulativos, atraídos por taxas de juros altíssimas, freio de mão permanentemente acionado para o crescimento. Os IEDs, para ingressarem, além do milho que atrai os pombos representado pelos juros altos, exigem o aval dos organismos controladores internacionais, a começar pelo FMI. Sem ele, os pombos se assustam e voam para longe. No ano passado, o balanço de pagamentos acumulou um saldo deficitário em transações correntes de US$ 24,6 bilhões contra um investimento direto externo, incluídos reinvestimentos, de US$ 30,2 bilhões, números bem parecidos com os de 1999. A armadilha da política econômica foi acionada com o controle do FMI sobre o equilíbrio fiscal e conceitos mal definidos de investimento e custeio que imobilizaram o investimento em geração e transmissão de energia nos últimos anos. Entre os ingredientes da crise está o desconforto do negociador brasileiro que, no ímpeto de mobilizar recursos externos, deixa de negociar a qualidade deles. Parte dos recursos classificados como IEDs foi para o setor elétrico, na forma de ingressos para a privatização de empresas. Só que o governo federal não fez constar de qualquer contrato de concessão de empresa privatizada a exigência de aplicações em novas usinas, deixando a critério do investidor direcionar os dólares da privatização para empresas amortizadas com recursos da poupança pública do BNDES, quando deveria ter direcionado as aplicações para a expansão do setor. Ao invés da privatização produtiva optou-se pela privatização especulativa. Uma crise deste tamanho tem por certo causas diversas e seria simplista considerá-las isoladamente. O crescimento do consumo está sempre acima do crescimento do PIB. Na década de 70, para um crescimento do PIB de 8,6%, o consumo de energia cresceu 11,5%; na década de 80, o crescimento do PIB foi de 1,6% comparado com o crescimento do consumo de energia de 6,0%; na última década o PIB cresceu 2,5%, contra um crescimento do consumo de energia de 4,4%. No período de 2001 até 2004, o Ministério de Minas e Energia considera um crescimento do consumo de 5,5%. Para tanto, o sistema terá que gerar 4.600 MW por ano, no mínimo, um investimento equivalente de R$ 10 bilhões. De 1995 até 2000, foram incorporados 15.959 MW, equivalentes a 2.660 MW por ano, em média. A meta do setor é de incorporar 22.915 MW até 2003. Esforço que esbarra na incredulidade derivada de algumas indefinições. Cerca de 53% da meta de investimento em MW estão concentrados na operação de novas termelétricas, através do Programa Prioritário de Termelétricas (PPT), lançado em fevereiro de 2000, que inclui 49 usinas alimentadas a gás natural, todas com a participação da Petrobras. Até abril de 2001, apenas 13 das usinas tinham contratos assinados. A maior parte das termelétricas deverá utilizar o gás importado da Bolívia e uma indefinição vem retardando o programa. A receita das usinas será gerada em reais e o descompasso entre real e dólar - novamente a política econômica - leva a um impasse letal, já que o financiamento dos equipamentos e insumos é cotado em dólar. A desatenção por tanto tempo com os aspectos ambientais também restringe este tipo de investimento, pois as termelétricas apresentam um consumo de água grande para uma geração de energia relativamente pequena e, em muitas regiões consumidoras que necessitam do acréscimo de oferta, já existe uma exaustão ambiental de oferta de água. A sopa de letras de instituições coordenadoras da energia no Brasil acaba sugerindo uma descoordenação - Aneel, MME, Caet, Caehidro, CCPE, CNPE, Comae, ONS etc. - que ressalta a importância de uma conscientização também das empresas-cidadãs. A ênfase da ação pública na restrição ao consumo tem um preço social e econômico demasiadamente alto e não representa solução. É o momento de investir em conservação, através de projetos de eficiência energética, capazes de reduzir gastos em até 50%. Em 2000, indústria e comércio foram responsáveis por 59% da energia distribuída e cada kW/hora produzido exige um investimento de cerca de R$ 2 mil. Poupar 1% do consumo brasileiro, equivalente a 700 MW, significaria um alívio de R$ 1,4 bilhão em geração e transmissão. A energia renovável, de baixo impacto ambiental, representa também uma alternativa importante para a empresa-cidadã. A energia fotovoltaica, derivada do sol, eólica, derivada dos ventos, e a biomassa, derivada de substratos vegetais e do lixo, já estão em projetos ou empreendimentos de pequena escala da Petrobras, Eletrobrás, Chesf, Shell, CEB e Coelce, além de universidades. O grande desafio de hoje poderá ter neles a maior resposta.

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