A nova esquerda

“O George Soros, por exemplo, é de esquerda, é um dos maiores críticos do mundo em que vive.” A afirmação, em tom sério, não foi feita por alguém que defenda “não existirem mais diferenças entre esquerda e direita”, como presidente eleito do Chile, o neopinochetista Sebastían Piñera, mas pelo economista petista e secretário de Economia Solidária do Ministério do Trabalho, Paul Singer, no segundo dia do Fórum Social Mundial (FSM), Porto Alegre.
Singer refez a classificação ideológica do mega-especulador húngaro ao sustentar a tese de que o Fórum Econômico Mundial de Davos “não é uma reunião de demônios”: “Davos também tem diferenças internas. Tem muita gente boa lá no meio, inclusive da economia solidária”, garantiu.

Neopetistas
A singular percepção de Singer sobre a coloração ideológica de Soros ajuda a explicar a presença de Henrique Meirelles à testa do Banco Central. Afinal, o principal responsável pela indicação de Meirelles foi seu antecessor imediato, Armínio Fraga, que, nos estertores de 2009, após defender maior controle do sistema financeiro, proclamou ser de “centro-esquerda”, foi funcionário de Soros num desses fundos descontrolados.

Fetichismo
O reforço do lobby pró-juros altos mobilizado imediatamente após a divulgação do Boletim Focus , do Banco Central (BC), com a previsão dos babalorixás do mercado financeiro de que a inflação medida pelo IPCA fechará 2010 em 4,6%, fornece um bom mote para estimular o debate sobre o futuro do Brasil e o tipo de país que os brasileiros desejamos construir. Caso a previsão dos videntes ouvidos pelo BC estivesse correta, isso significaria que o IPCA fecharia 0,01 ponto acima da meta oficial definida pelo BC. Dessa milimétrica diferença, os agentes ligados ao mercado financeiro deduzem ser inevitável, não apenas elevar a taxa básica de juros (Selic), como antecipar esse aumento já para abril.
Esse raciocínio rudimentar reivindica-se uma atualização do pensamento da escola neoclássica, para a qual a economia sempre convergiria para um ponto de equilíbrio. Este seria previsível e fruto da interação de variáveis econômicas cuja alteração não implica modificar em profundidade a estrutura do sistema econômico. Para os crédulos dessa doutrina, os modelos ortodoxos são expressos matematicamente e solucionados por sistemas de equações lineares, indispensáveis para validar a hipótese das expectativas racionais, que, por sua vez , é caudatária da crença na estabilidade estrutural.
Para os defensores desse credo, os agentes sociais não criam opções, tomam decisões baseadas no conjunto de informações que dispõem, elegendo suas estratégias de ação a partir das próprias expectativas que formam. As mudanças nos parâmetros do modelo derivariam de variáveis internas. Dentro dessa lógica, as mudanças não podem comprometer a estabilidade do sistema, mas podem sofrer desvios, considerando-se que os valores dos parâmetros podem ser alterados para voltar às condições iniciais. Assim a instabilidade, por ser apenas transitória, aproximaria a economia, ciência social, de uma ciência laboratorial, exata, na qual os experimentos poderiam ser isolados das interferências do ambiente. Daí a fobia dos seus adeptos à História.
No caso da Selic, tal teoria se explicita no tripé previsão do Focus, lobby pró-juros altos e ação do BC para sancionar o aumento previsto pelo “mercado”. Com tal paradigma, pode-se se sustentar uma ciência de laboratório, mas um país que se pretenda dono do próprio destino não pode ter o debate sobre seu futuro e seu desenvolvimento capturado por um fetichismo tão tosco.

Os bancos são nossos
Presente ao Fórum Social Mundial (FSM), a escritora e doutora em política pela Escola de Altos Estudos de Ciências Sociais de Paris Susan George defendeu maior controle sobre a regulamentação da economia: “Os bancos são nossos, nós pagamos pelos bancos. Eles têm de receber ordens políticas. Temos de direcionar o capital para investimentos em energia gratuita e alimentos. O mundo está cheio de dinheiro, dinheiro não é problema, o problema é a política”, salientou Susan, acrescentando que o sistema financeiro foi colocado à frente da economia real, da sociedade e do meio ambiente, como em um esquema de círculos concêntricos, em que o financeiro é o maior a mais importante: “Nossa tarefa é inverter a ordem desses círculos”, defendeu.

Parecer
O que a Procuradoria da Fazenda Nacional acha do pagamento das debêntures da Eletrobrás?

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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