Há 80 anos, após duas guerras mundiais — ambas eclodidas na Europa —, foi criado um modelo de desenvolvimento que garantia paz, bem-estar e prosperidade para milhões de pessoas. Naquela época, o mundo estava dividido em dois blocos, mas a esperança no Ocidente residia na crença de que, com a queda da Cortina de Ferro, tudo seria melhor, segundo uma lógica compartilhada por todos. O Muro de Berlim caiu, mas não houve uma profunda reformulação global do modelo de desenvolvimento, com as consequentes reformas necessárias para harmonizar sentimentos, hábitos, costumes e tradições de dois mundos verdadeiramente distintos.
Infelizmente, nos últimos 40 anos, os estadistas desapareceram, substituídos por figuras em busca de aplausos fáceis, cegas a um mundo em profunda transformação — um mundo, aparentemente distante, que se organizava, tornando-se cada vez mais importante e poderoso.
Utilizando uma linguagem muito clara, o presidente Xi abriu uma reunião em Tianjin, há dois meses, no âmbito da Organização de Cooperação de Xangai (OCX), com um discurso extremamente esclarecedor, criticando o “hegemonismo e a política de força” que caracterizam o mundo atual, “atravessado por turbulências e mudanças”. Muitos líderes estiveram presentes na reunião, incluindo Vladimir Putin e o indiano Narendra Modi. Xi os instou a “aderir à equidade e à justiça”, contra “a mentalidade da Guerra Fria, o confronto entre facções e o comportamento intimidador” na ordem mundial. Em seguida, acrescentou: “Sempre defendemos a equidade e a justiça internacional”, ressaltando “a tolerância e o aprendizado mútuo”.
O líder chinês afirmou que a atual situação internacional “está se tornando caótica e interconectada”, tornando as tarefas de segurança e desenvolvimento enfrentadas pelos Estados-membros da OCX ainda mais desafiadoras. O presidente chinês afirmou, então, que “olhando para o futuro, devemos permanecer firmes, seguir em frente e desempenhar as funções da organização da melhor maneira possível”, respeitando as “diferenças” e mantendo “a comunicação estratégica para construir consenso e fortalecer a solidariedade”. A esperança é “alinhar melhor as estratégias de desenvolvimento, promover a Iniciativa Belt and Road (BRI) e alavancar o poder dos grandes mercados”, otimizando, assim, “o comércio e o investimento”.
O fato de o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, não visitar a China há sete anos conferiu à reunião um significado particularmente expressivo. Isso ocorreu em um momento de drástica piora nas relações entre Nova Déli e os Estados Unidos, devido às tarifas impostas por Trump.
Esse fato leva a crer que dois gigantes como China e Índia são “parceiros, não rivais” — pelo menos no curto e médio prazo, se os Estados Unidos não mudarem de atitude.
A reunião de Xangai proporcionou três indicações interessantes: deu ao presidente russo, Vladimir Putin, a oportunidade de emergir do isolamento internacional; deu a Modi a oportunidade de se reaproximar da China, após sua irritação com Trump; e deu a Xi Jinping uma plataforma para se afirmar, cada vez mais, como líder do Sul Global.
Vladimir Putin também discutiu, com o presidente chinês Xi Jinping e outros líderes, o resultado da cúpula de agosto, no Alasca, com Donald Trump. O líder do Kremlin disse que “apreciava os esforços” da China e da Índia visando resolver a crise na Ucrânia. Putin indicou a solução como “a necessidade de abordar as causas e restaurar o equilíbrio de segurança”. A Rússia adere ao princípio de que nenhum país pode garantir sua segurança às custas de outros. Em suma, a guerra só terminará se Volodymyr Zelensky desaparecer, e a Ucrânia passar definitivamente para o controle russo.
Desde os primeiros dias da cúpula, ficou claro que a China aumentará os investimentos e empréstimos aos seus parceiros da Organização de Cooperação de Xangai, com o objetivo de fortalecer o “maior bloco de segurança regional” e iniciar uma “nova fase de desenvolvimento e cooperação de alta qualidade”.
Em conclusão, uma nova ordem mundial nasceu — e seus idealizadores são três países que, juntos, representam mais de um terço da população mundial e aproximadamente 25% do PIB nominal global.

















