A pandemia do burnout

Por César Griebeler.

É um mito que colaboradores apaixonados são imunes ao esgotamento

 

A paixão pela profissão ou simplesmente a preocupação com as contas no fim do mês podem levar muita gente a viver quase que exclusivamente para o trabalho. Essa dedicação exacerbada, em muitos casos, leva a níveis perigosos de cansaço físico e psicológico, capazes de ser o estopim para o desenvolvimento de enfermidades.

Cada vez mais conhecida, a Síndrome de Burnout ou Síndrome do Esgotamento Profissional é um dos principais distúrbios atrelados à exaustão extrema, estresse e esgotamento. Sua principal causa está, justamente, no excesso de trabalho, geralmente guiado por rotinas laborais desgastantes, e situações que demandam um alto grau de competitividade ou responsabilidade.

Identificada pela primeira vez nos Estados Unidos em meados dos 1970, a síndrome passou despercebida por anos até ganhar luz durante a pandemia, quando atletas e celebridades começaram a falar abertamente sobre o problema. Dos nomes icônicos aos profissionais das mais diferentes áreas, somente em 2021, 79% dos trabalhadores norte-americanos sofreram estresse relacionado ao trabalho, segundo um estudo realizado pela American Psychological Association.

Dissipando o mito de que colaboradores apaixonados são imunes ao esgotamento, um levantamento feito pela Deloitte mostrou que, dos 87% que dizem ter paixão por seu trabalho atual, 64% estão frequentemente estressados. No Brasil, pesquisa feita pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) concluiu que 1 em cada 5 profissionais sofre desse problema. A análise também apontou que a maioria da população afetada pelo burnout tem menos de 30 anos.

A movimentação em torno da doença e o crescimento vertiginoso de casos levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a finalmente reconhecer o burnout como uma doença ocupacional em janeiro deste ano, criando um efeito cascata em empresas de todo o mundo. Nunca o tema saúde mental esteve tão em pauta na mesa de líderes e gestores globais como nos últimos meses. Mas nem mesmo a oferta de benefícios de bem-estar parecem ser suficientes para corrigir os impactos negativos já causados pela síndrome.

Diretamente relacionada à atração e retenção de talentos, a atenção com a saúde escalou para um novo patamar. Grandes profissionais em todo o planeta têm aberto mão de altos salários e estabilidade em troca de melhor qualidade de vida. O Brasil, por exemplo, parece estar vivendo uma situação relativamente similar ao Great Resignation (Big Quit ou Great Reshuffle), que pode ser traduzido como a Grande Renúncia, em português.

Enquanto mais de 4 milhões de norte-americanos vêm pedindo demissão todos os meses desde setembro de 2021, o Brasil, apesar da fila de 12 milhões de desempregados e da expectativa de que essa taxa siga crescendo, também vem sofrendo a sua grande renúncia. Em fevereiro, por exemplo, 560.272 pessoas pediram demissão, segundo levantamento feito pela LCA Consultores. É o dobro do registrado nos anos anteriores à pandemia, de acordo com o estudo realizado pelo Lagom Data.

Quase metade dos recrutadores e hunters acredita que os profissionais estão mais propensos a sofrer de burnout no segundo semestre de 2022, indica a 19ª edição do Índice de Confiança Robert Half. De acordo com os entrevistados, as cinco principais razões que os levam a essa afirmação são cargas de trabalho mais pesadas (58%), a falta de equilíbrio entre vida profissional e trabalho (58%), mais pressão para obter resultados (55%), incertezas quanto ao rumo da pandemia (52%) e a alta demanda de trabalho concentrada em equipes reduzidas (51%).

Não por acaso, diferentemente das edições anteriores, o HIMSS – Global Health Conference & Exhibition 2022, realizado em março nos Estados Unidos, trouxe diversas palestras sobre burnout. O tema que está abrangendo toda a cadeia no setor de médicos, enfermeiros, técnicos e também os times de TI e de soluções, foi um dos pontos focais do encontro que reuniu grandes nomes, discutindo principalmente como as pessoas podem melhorar com relação ao burnout em um momento delicado, entre a incerteza do fim da pandemia, o retorno à vida normal e a adaptação a um novo mundo híbrido.

 

Sintomas e cuidados

Em um artigo da Psychology Today, Jessi Gold, da Escola de Medicina da Universidade de Washington, explica que o burnout é um trampolim para a depressão, mas diferente dela. Gold afirma que, ao contrário da depressão, que pode ser causada por muitos gatilhos diferentes, o burnout está relacionado especificamente ao local de trabalho.

Uma vez identificados seus sintomas, é recomendável seguir alguns passos para começar a jornada de mudanças rumo a uma melhora, de acordo com um artigo publicado pela Harvard Business Review. A estratégia prevê a priorização de bons hábitos de sono, nutrição, exercícios, conexão social e práticas que promovam a equanimidade e o bem-estar, como meditar, escrever em um diário e curtir a natureza. A mudança de perspectiva também é fundamental, o que exige uma revisão de suposições e de tudo aquilo que pode ser de fato mudado ou não.

Sendo a psicoterapia uma parte fundamental do tratamento, o home care, ou cuidado domiciliar, é um catalisador para o pleno restabelecimento da saúde mental, já que usa a tecnologia para oferecer toda a atenção necessária onde o paciente reside. Soluções em nuvem e aplicativos móveis trazem funcionalidades específicas que ajudam a proporcionar um atendimento humanizado e contínuo, sem que o paciente tenha que transformar sua rotina e a de seus familiares, facilitando a sua recuperação.

O burnout é um problema que precisa ser levado a sério: para melhorar sua produtividade a longo prazo sem abdicar da proteção à saúde, antes de mais nada é necessário reduzir a exposição a estressores do trabalho. Na prática, isso significa direcionar relacionamentos de alto valor e redefinir as expectativas de colegas, clientes e até de familiares, estabelecendo regras básicas para trabalhar em conjunto.

 

César Griebeler é vice-presidente de Tecnologia da Pulsati.

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