A saúde é um desafio até para uma gigante de tecnologia

Por Adelvânio Francisco Morato.

Poucos setores são tão desafiadores quanto a saúde. Mesmo o Google tem enfrentado dificuldades para avançar em suas tentativas de atuar no setor. Recentemente, a gigante de tecnologia anunciou a saída de David Feinberg. O executivo, que até então estava à frente do Google Health, divisão de pesquisas e tecnologias voltadas ao setor de saúde, deixou o cargo para presidir outra empresa de tecnologia.

Ao que tudo indica, o Google não pretende substituir o executivo, mas sim encerrar a sua divisão de saúde. Porém não será uma novidade se ela repensar os investimentos em pesquisas no setor. Desde 2008, quando foi criado o Google Health, primeiro como uma plataforma com o objetivo de ajudar usuários a organizarem documentos médicos, como receitas e exames, tudo online, a empresa já reformulou várias vezes sua estratégia direcionada ao setor de saúde.

Nem se pode dizer que isso é resultado de incompetência, o Google é uma das marcas mais valiosas do mundo e revolucionou a experiência das pessoas com a internet. A verdade é que ter sucesso no setor de saúde é um desafio até mesmo para as maiores empresas, pois poucos setores desempenham um papel social e econômico tão importante. Além disso, a forte regulação e os elevados custos nem sempre tornam atrativos investimentos em curto e médio prazo. Há também a necessidade de esperar que o governo tenha sensibilidade para as pautas do setor.

No Brasil, vivemos o temor de fechamento de muitos hospitais privados. No Rio de Janeiro, por exemplo, um hospital centenário, legado da imigração alemã, abriu pedido de falência e teve que interromper diversos atendimentos. Essa pode se tornar a realidade de inúmeros pequenos e médios estabelecimentos nos próximos meses.

O ano passado foi tenebroso para o setor hospitalar, com a queda de atendimentos e superinflação no preço de insumos provocados pela pandemia. Há unidades que registraram uma perda de 60%, com o impedimento da realização de cirurgias eletivas e outros atendimentos. O que boa parte da sociedade não sabe é que esse cenário sombrio também vai impactar o atendimento do SUS. Isso porque, no Brasil, cerca de 56,5% dos hospitais privados realizam atendimento pelo Sistema Único de Saúde.

A situação poderia ser melhor se houvesse justamente apoio do Governo Federal para minimizar as intempéries provocados pela pandemia. Entretanto, apesar de inúmeras tentativas da FBH, ainda não houve sensibilização. Infelizmente, se a crise persistir, vai ser a parcela mais carente da população que sentirá com mais peso. No caso do interior do país, a crise pode provocar, em muitos casos, o fechamento do único estabelecimento disponível na região. Nos grandes centros, a demanda vai buscar atendimento na rede pública. Porém, não é nenhuma novidade o fato de que os hospitais públicos hoje não têm capacidade para atender a demanda existente.

É preciso que os governos repensem suas relações com o setor privado da saúde, para que possamos atrair em definitivo investimentos de grandes empresas como o Google. Essa sensibilização também é primordial para que os hospitais saiam da UTI e voltem a investir em tecnologia, pesquisas e serviços de qualidade. Sem isso, o país vai enfrentar uma nova crise, a da queda na qualidade dos serviços de saúde.

 

Adelvânio Francisco Morato é presidente da Federação Brasileira de Hospitais (FBH).

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