A síndrome do medo

Opinião / 10:14 - 18 de out de 2002

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Os terroristas islâmicos estão explorando diabolicamente os efeitos do medo para atemorizar aqueles que elegeram como seus inimigos. Esta estratégia do medo foi anunciada abertamente pelo líder da seita terrorista Al Qaeda, Bin Laden, no seu famoso manifesto ao povo islâmico, há mais de um ano. Relembramos o teor de sua ameaça: - Estes acontecimentos (11 de setembro), dividiram o mundo em dois campos: o campo dos fiéis e o campo dos infiéis. A guerra santa - Jihad - é um dever de todos os Muçulmanos. Não há desculpas, Deus (Alá), mandou lutar pela sua causa e pelo seu nome. O povo norte-americano, e seus aliados não terão mais tranquilidade, enquanto seu governo não retirar as suas forças da terra sagrada de Maomé e não deixar de apoiar os infiéis de Israel contra os palestinos. É o que estamos assistindo, grandes e pequenos atentados terroristas contra os "infiéis". O inimigo principal são os Estados Unidos e seus aliados, sejam os seus aliados europeus, asiáticos ou africanos. A justificativa desta guerra de atentados, de fiéis islâmicos suicidas, é o ódio religioso que encobre ressentimentos culturais e interesses dissimulados. Entre os grandes atentados podemos listar o ataque as torres do World Trade Center e ao Pentágono (11 de setembro de 2001) e o mais recente, a um centro de diversões em Bali, Indonésia, matando cerca de 200 pessoas e ferindo 300, na maioria turistas atraídos pela chamada "ilha dos deuses". Entre os atentados médios e individuais assistimos, entre outros, neste curto período de um ano, às seguintes agressões terroristas: contra militares norte-americanos e ingleses no Afeganistão e no Paquistão; os atentados com gás antraz nos Estados Unidos; a tentativa de explodir uma bomba no sapato de um passageiro em vôo com destino aos Estados Unidos; a bomba no petroleiro francês na costa do Lêmen; os ataques de franco atiradores contra tropas norte-americanas em treinamento do Kuwait; o atirador oculto que vem matando dia a dia, um a um, e já fez mais de dez vítimas nos arredores de Washington. Esta série de ataques terroristas está provocando, nos países mais visados, o que chamaríamos de "Síndrome do Medo". Seus efeitos, além do clima coletivo de tensão que cria, provocam inusitados prejuízos financeiros e econômicos. Tomando-se por exemplo apenas o atentado de Bali, grande centro turístico da Indonésia, os prejuízos causados pelo medo são impressionantes. Esta cidade-ilha recebeu no ano passado cerca de 1,5 milhão de turistas estrangeiros. Isto representou 9% da renda anual da Indonésia. Para sustentar este movimento turístico a cidade possui extensa rede de hotéis, restaurantes, bancos e casas de diversão. Uma semana após os atentados todas reservas nos seus hotéis foram canceladas, todos aviões chegaram vazios e regressaram cheios. O fantasma da falência e do desemprego ameaça centenas de milhares de pessoas ligadas à "indústria do turismo". Aquela que foi "a ilha dos deuses" está afundando numa desesperante catástrofe econômica. Este, o exemplo do "efeito Bali", é um modelo que está assustando os povos visados pela rede terrorista que, segundo as informações divulgadas pelos governos de Washington e Londres, age sob a orientação da seita Al Qaeda, dirigida por Bin Laden. A humanidade não pode ficar submetida às táticas diabólicas de pequenos grupos de insanos terroristas. Uma estratégia de defesa deve ser encontrada pelos governos responsáveis dos povos que desejam viver sem medo. Lembramos as palavras Horácio, nas Epístolas: "Quem vive sob o domínio do medo, nunca será livre". Carlos de Meira Mattos General reformado do Exército e conselheiro da Escola Superior de Guerra (ESG).

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