A única chance do Brasil

Opinião / 13:17 - 19 de fev de 2003

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Fernando Henrique não conseguiu. Não faltou esforço, tenho certeza. Serra dificilmente conseguiria. Mas Lula, de lua-de-mel com o povo brasileiro, tem uma oportunidade única de tocar as reformas de que tanto o país necessita para se tornar enfim viável. Um novo porto seguro para o capital mundial. Vamos imaginar um cenário novo, onde já tenham sido aprovadas as reformas da Previdência, fiscal, trabalhista e política. O risco-país brasileiro, que já chegou a 2.500 pontos e que hoje gira em torno de 1.300, poderia cair abaixo dos 300 pontos. O dólar, com certeza, não teria o fôlego de hoje, mesmo com as constantes crises externas e a bolsa de valores faria muito mais giro. A economia deslancharia. E por que Lula tem mais chances que Fernando Henrique de aprovar as reformas? O povo brasileiro é muito sofrido, disso todos nós sabemos. No entanto, encontrou em Lula um redentor. Aí ele se dirige ao povo dizendo que não tem outro jeito de o país se desenvolver e gerar empregos, a não ser aprovando todas essas reformas. O povo vai engolir a seco, mas vai apóia-lo. Apoiou FH? Não. Apoiaria Serra? Muito dificilmente. Por isso, a chance que Lula tem é única. Não pode deixar passar. Nunca se falou tanto da urgência das reformas. Para isso, a atuação de Lula como estrategista político também é exemplar. Um primeiro acordo com o PMDB, que tinha a marca da barganha, foi desautorizado na montagem do Ministério. Retomado agora, levou a um acordo interno que garantiu a escolha de José Sarney para a Presidência do Senado e a eleição do deputado petista João Paulo para a Presidência da Câmara. PT, aliados e PMDB já são maioria no Congresso, embora os três quintos necessários para aprovar reformas constitucionais ainda não possam ser alcançados, senão com o apoio da oposição. Mas tanto PSDB quanto PFL não deverão representar problema para o governo, pelo menos para a aprovação das reformas. Eles próprios alegam serem exatamente iguais às defendidas no governo FH. O primeiro mês do governo Lula foi de agradável surpresa. Desde sua posse, em 1º de janeiro, temos muito a comemorar. A excelente receptividade de nosso presidente junto a diversos líderes mundiais nos encheu de orgulho. Para aqueles que apostavam ser a política externa o ponto fraco do novo governo, se enganou redondamente. A participação de Lula nos fóruns de Porto Alegre e Davos foi irretocável. Ele soube falar para platéias completamente antagônicas, sem jamais cair em contradição. Em visita a Berlim e Paris, falou grosso contra o protecionismo europeu aos produtos agrícolas. O pulo do gato é que essa fala dura foi acompanhada de um modo bastante diplomático de agir com os grandes. Por ter sido líder sindical, Lula fica bastante confortável ao dialogar com pessoas em posição superior. Seu poder de barganha é enorme. Pode conseguir, por exemplo, que finalmente o Mercosul deslanche. Posicionando o Brasil como a grande liderança da América do Sul, Lula trouxe de volta as negociações para consolidar o bloco, que muitos já davam como perdido. Com um orçamento apertado para 2003, Lula não pode fazer nem um décimo do que prometeu em campanha. Por isso, marcou um belo gol ao lançar o Programa Fome Zero. Desde o primeiro dia de governo centra toda expectativa social num único programa, que está mobilizando o país. O Fome Zero, em si, não resolve nada. Geração de empregos, sim. Por isso, o programa é acusado de assistencialista. Mas Lula está ciente disso. Tanto que avisou: não basta dar o peixe, é preciso ensinar a pescar. Só que, no momento, os mais carentes precisam do peixe nas mãos, do contrário vão continuar morrendo de fome. Ninguém estuda ou aprende um ofício se suas necessidades básicas como a alimentação não estiverem satisfeitas. Dentro desse clima de otimismo, nossos indicadores financeiros melhoraram substancialmente. O que nos preocupa, no momento, para variar, é um fator externo: a provável guerra dos Estados Unidos contra o Iraque. O governo já preparou um pacote emergencial, que inclui até vacinação contra a varíola. Tomara que não seja necessário. José Arthur Assunção Presidente do Sindicato das Financeiras dos Estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo e diretor da ASB Financeira.

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