A verba pública da mídia privada

Os gastos com a EBC (Agência Brasil, rádios Nacional, MEC, TV Escola, Voz do Brasil, TV Brasil, NBRe muitos outros) chegam a R$ 3,6 bilhões desde sua criação, há oito anos. No mesmo período, apenas a TV Globo recebeu R$ 4,8 bilhões em publicidade do Governo Federal. A Globo, junto com as cinco emissoras de propriedade do grupo (a conta não inclui as retransmissoras), recebeu um total de R$ 6,2 bilhões em propaganda estatal durante 12 anos dos governos Lula (2003 a 2010) e Dilma (2011 a 2014). No mesmo período, a Record levou R$ 2 bilhões; o SBT recebeu R$ 1,6 bilhão; a Band ficou com R$ 1 bilhão; e a Rede TV!, com menos de um ponto de audiência, recebeu R$ 408 milhões nos anos petistas. Ao todo, o Governo Federal, na administração do PT, gastou R$ 13,9 bilhões para veicular comerciais em TVs abertas. A Globo, portanto, ficou com quase metade, muito parecido com a fatia que recebia no Governo FHC (quando embolsava 49% da publicidade televisiva); no primeiro ano do Governo Lula, a potência global chegou a abocanhar 59% da verba da TV aberta, percentual desproporcional a sua audiência – que vem em queda livre (em 12 anos, caiu de 17 para 12 pontos).

Os gastos federais bilionários são uma distorção brasileira. As grandes empresas de mídia funcionam como boa parte do grande empresariado (não só o nacional): privatizam as verbas públicas e estatizam os prejuízos. A enxurrada de verbas publicitárias não impede a crise da grande mídia. Relatório da auditoria Ernst & Young em cima do balanço financeiro de 2015 do Grupo Bandeirantes diz que “há dúvida significativa quanto à capacidade de continuidade operacional da companhia”. Os prejuízos acumulados somam R$ 440 milhões. A situação é grave em outras emissoras de rádio e TV, assim como em revistas e jornais. Que também recebem belo quinhão de verba estatal.

Nos governos Lula e Dilma, os jornais impressos levaram R$ 2,1 bilhões de publicidade federal. Desse total, R$ 730,3 milhões (35%) foram destinados a apenas quatro publicações: O Globo, Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo e Valor Econômico (este dos grupos Globo e Folha). A revista Veja critica os gastos públicos, mas não rasga dinheiro: em 2014, levou R$ 19,9 milhões do governo (em 2009 chegou a abocanhar R$ 43,7 milhões). A publicação semanal de direita recebeu, em 2014, mais que o dobro que toda a mídia alternativa que raivosamente critica (R$ 9,2 milhões).

Como o Governo Federal está sem dinheiro – até o Fundo Soberano, que financiaria educação e pesquisa, terá seus R$ 2 bilhões destinados ao pagamento dos juros da dívida – esta coluna, sempre disposta a contribuir com propostas concretas, sugere um profundo corte nos gastos publicitários estatais. Quem sabe com um choque de capitalismo, sem a intervenção danosa do Estado, a grande mídia tupiniquim não toma jeito?

Estado mínimo

A Globo não se contenta só com verba federal. Da Prefeitura do Rio de Janeiro, de Eduardo Paes, obteve quase R$ 23 milhões em patrocínios diversos, como o prêmio Estandarte de Ouro (R$ 980 mil da Riotur), Rio Gastronomia (R$ 3,2 milhões), Projeto Aquarius (R$ 2,2 milhões) e outros mais.

Acredite se puder

O que foi fazer o ministro do Supremo Gilmar Mendes, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e da junta do STF que julga os recursos da Operação Lava Jato, com o presidente interino, Michel Temer, sábado à noite, no Palácio do Jaburu? Ver um filme com o peemedebista, tal qual costumava fazer, no palácio vizinho, o general ditador Médici, que recebia políticos toda semana no cineminha?

Temer não tinha agenda oficial desde quinta-feira, feriado de Corpus Christi. Embarcou para São Paulo e foi com a família para a portentosa fazenda no interior. Sexta-feira, apesar de ter chegado há pouco à cadeira de presidente, decidiu enforcar.

Pois eis que, repentinamente, volta na noite de sábado; e recebe Gilmar Mendes. O ministro disse que foi tratar da recomposição de verbas do TSE para poder tocar as eleições municipais.

Trintões tristões

Aos 30 anos, 44% dos brasileiros das classes A, B e C tem o sentimento de “não ter chegado onde queria”. Muito da frustração advém de uma postura de “deixe a vida me levar”: 64% sente que não teve controle sobre as escolhas, e as coisas simplesmente aconteceram; para 36%, as escolhas e planejamento foram os responsáveis pelo que se tornou. Apenas 15% dos entrevistados está plenamente satisfeito com as próprias conquistas. Essas são algumas das conclusões da primeira etapa do Projeto 30, desenvolvido pela Pesquiseria e coordenado pela Giacometti Comunicação.

Rápidas

O Ipea lança nesta terça-feira a Nota Técnica Radiografia do Gasto Tributário em Saúde 2003–2013, elaborada em parceria com a Receita Federal *** Será realizado também nesta terça o 5º Fórum da Saúde e Bem-estar, no Hotel Grand Hyatt, em São Paulo. Promovido pelo Grupo de Líderes Empresariais Lide), contará com a presença do governador Geraldo Alckmin e dos secretários da Saúde do Estado, David Uip, e da capital, Alexandre Padilha *** A adesão à festa do prêmio Colunistas no Rio pode ser feita até esta terça-feira com desconto de 17%.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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