A vida severina maior do que o partido político – Lula candidato

Por Felipe Quintas e Pedro Augusto Pinho.

O jornal O Estado de S. Paulo tem, desde 10 de novembro de 2021, novo diretor de jornalismo buscando enfrentar a possível candidatura de Lula à presidência do Brasil. O comunicado de Francisco Mesquita Neto, presidente do Grupo Estado, apresenta Eurípedes Alcântara como o jornalista que passou 31 anos na revista Veja, tendo-a dirigido nos últimos 12 anos lá trabalhados.

Nem precisava afirmar que a credencial que levou à contratação do novo diretor não foi o resultado de sua administração na Veja, mas se deveu à campanha que empreendeu contra Luiz Inácio Lula da Silva (Caetés, PE, 1945) conseguindo, juntamente com o sistema Globo, minimizar a mobilização popular que impediria os arbítrios do juiz Moro.

O Estadão desistiu de procurar o candidato tucano, pois para este defensor da retrógrada classe rural paulista, Lula é inaceitável. Para a imprensa comercial, antipopular, neoliberal e corrupto-defensora dos verdadeiros corruptos, os financistas, é inimaginável voltar a ver o pobre na fila de embarque nos aeroportos, os filhos de porteiro se formando nas faculdades e todos se alimentando. O escravismo, repaginado na forma de modernidade global, é o substrato sociogenético das oligarquias brasileiras.

Na biografia do ex-presidente divulgada pelo Instituto Lula se lê que “nasceu numa casa de dois cômodos e chão de terra batida no semiárido pernambucano. Sem luz, água encanada, banheiro ou sapatos, o menino tinha sete anos quando montou num pau-de-arara e, cumprindo a sina de milhares de outros brasileiros, ‘despencou’ para o sul-maravilha com a mãe e os irmãos, a fim de reencontrar o pai, que havia retirado semanas antes dele nascer, em busca de uma vida melhor longe da seca e da miséria”.

“Ambulante aos 8 anos e engraxate aos 9, vira ajudante de tinturaria no início da adolescência, quando se muda para São Paulo com a mãe e os irmãos solteiros. Conclui o ginásio e, empregado numa metalúrgica aos 14 anos, é admitido no curso técnico de torneiro mecânico do Senai”. O golpe militar vai encontrá-lo com 18 anos e esperançoso de ver o Brasil crescer, ampliar a oferta de emprego e melhores salários para a classe trabalhadora.

Ninguém que tenha acompanhado seu desempenho sindical e político poderia pensar que estava votando num revolucionário, de formação intelectual marxista, em 1989, em 1994, em 1998 e na vitória de 2002, e muito menos ainda na reeleição em 2006.

Lula sempre lutou na vida pessoal e política pelas condições da melhor existência “severina”, que João Cabral de Melo Neto cantou maravilhosamente:

“somos muitos severinos iguais em tudo na vida:

a mesma cabeça grande que a custo se equilibra,

no mesmo ventre crescido sobre as mesmas pernas finas,

e iguais também porque o sangue que usamos tem pouca tinta.

E se somos severinos iguais em tudo na vida,

morremos de morte igual, mesma morte severina:

que é a morte de que se morre de velhice antes dos trinta,

de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia”.

(JC de Melo Neto, Morte e Vida Severina, Auto de Natal Pernambucano, 1954-1955).

“A esperança, finalmente, venceu o medo, e a sociedade brasileira decidiu que estava na hora de trilhar novos caminhos”. “Foi para isso que o povo brasileiro me elegeu Presidente da República: para mudar”. “Enquanto houver um irmão brasileiro ou uma irmã brasileira passando fome, teremos motivo de sobra para nos cobrirmos de vergonha. Por isso, defini entre as prioridades de meu governo um programa de segurança alimentar”. “Como disse em meu primeiro pronunciamento após a eleição, se, ao final do meu mandato, todos os brasileiros tiverem a possibilidade de tomar café da manhã, almoçar e jantar, terei cumprido a missão da minha vida”. (Discurso em 1º/1/2003, na sessão solene de posse no Congresso Nacional).

Emprego e três refeições por dia era o projeto do Lula candidato e do Lula presidente. Tudo mais surgiu de sua inteligência privilegiada e de alguns assessores próximos, mais interessados no Brasil, em sua projeção nacional, do que em suas carreiras e menos ainda em riqueza pessoal. Eram e são poucos, mas Lula os ouviu e daí se têm o Brics, o G-20, a Unasul e seu importantíssimo Conselho de Defesa Sul-Americano, e programas de melhorias para o País, mais amplos do que o emprego e a assistência.

No entanto faltou o entendimento da questão nacional, capaz de sistematizar programas estruturantes, como fez Getúlio Vargas, que duraram quase um século, embora sempre combatidos pelas forças contrárias ao povo e à Nação Brasileira que os procuravam destruir.

Não há dúvida da consistência e da lealdade de Lula à questão social. Mas esta foi conspurcada pelas finanças no que se denominam “causas identitárias”, como se fossem desprendidas da sociedade, do País, como se pudesse tratar da sujeição sexual da mulher, da descriminação racial do negro, das opções e condições sexuais desvinculadas do Estado Nacional, que detém os instrumentos educacionais, a regulação das relações dos cidadãos e as repressões afastados do permanente envolvimento com tudo que é humano e nacional.

Públio Terêncio Afro, nascido em Cartago, na África, em 185 a.C., vendido como escravo, educado e libertado pelo senador romano Terêncio Lucano, foi dramaturgo e lhe é atribuída à frase “nada do que é humano me é estranho”. Mas o que pode ser mais humano que a organização da sociedade humana, integradora de todos numa única qualificação: cidadão.

Esta é a visão que, em nosso entendimento, falta ao humanista Lula: a compreensão da organização social onde estarão como fundações, como pilares de sustentação, bases onde possam ser fincadas todas as soluções e todas as possibilidades de realização dos seres humanos. Lula é um honesto defensor de melhorias nos galhos, como se eles não fossem a culminância de um corpo com tronco e raízes.

Os donos do capital apátrida, sem compromisso nem com pessoas nem com países, usam as manifestações de classe, de exclusão nas disputas pelo poder e pela riqueza, para dividir e reinar sobre as pessoas, sem qualquer verdadeiro interesse na solução de seus problemas. Ou alguém imagina que George Soros, um apátrida investidor de dez bilhões de dólares estadunidenses, está preocupado com a violência contra as mulheres brasileiras, com a perseguição policial aos negros estadunidenses, aos índios peruanos, aos homossexuais no Oriente Médio, ou qualquer pauta identitária?

Ele se manifesta clara e objetivamente contra o nacionalismo; sua Open Society, criada em 1984, defende a liberação das drogas, a legalização do aborto e a libertação de presos que eles chamam de “não violentos”. A organização também se orgulha de financiar projetos que “promovam os direitos em áreas como o reconhecimento legal da fluidez de gênero”.

Em entrevista recente, e vem sendo divulgado por lulistas, o ex-presidente ocupou boa parte de seu tempo encarcerado para ler. É auspiciosa notícia. Teria entendido a importância da questão nacional para dar consistência e consolidar o atendimento das questões sociais?

De qualquer modo, ainda será muito melhor do que a continuidade Temer–Bolsonaro ou do agravamento e aceleração do fim, da extinção do Estado Nacional Brasileiro com Sergio Moro. Resta sabermos se queremos nos conformar com o “menos ruim” ou construir, desde já, soluções de longo prazo à altura da grandeza do nosso País.

 

Felipe Maruf Quintas é doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

Pedro Augusto Pinho é administrador aposentado.

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