
A atividade diplomática dos últimos anos demonstra que os contatos e os apelos ao diálogo com atores ligados ao meio jihadista já não são tabu na prática contemporânea. Isso é demonstrado pela recente visita de Ahmed al-Sharaa à Casa Branca, que marca o retorno de Damasco ao cenário internacional, após décadas de isolamento. Essa reaproximação oferece excelente oportunidade para redefinir a posição da Síria e testar um novo equilíbrio entre política interna, reconciliação e diplomacia regional.
De fato, é justo dizer que a visita de Ahmed al-Sharaa à Casa Branca marca um ponto de virada histórico para a Síria e para Washington. Ex-combatente da Al-Qaeda contra as forças americanas no Iraque, há duas décadas, al-Sharaa é agora o primeiro presidente sírio a ser recebido no Salão Oval, desde 1946. Entre outras coisas, o encontro com Donald Trump abriu caminho para a entrada de Damasco na Coalizão Internacional Anti-Isis, composta por 89 nações, e, de forma mais geral, marcou o fim de um longo período de isolamento diplomático.
Vale ressaltar que Ahmed al-Sharaa tem como objetivo reconstruir a credibilidade da Síria, formando um governo que promove profundas reformas econômicas e se abre para o mundo exterior.
De forma prudente, os americanos estão demonstrando disposição para investir em sua liderança. Apesar dessas premissas, no entanto, sérias dúvidas permanecem em relação às promessas de reconciliação e pluralismo, enquanto a recuperação econômica continua frágil. Segundo o Banco Mundial, são necessários aproximadamente US$ 200 bilhões para a reconstrução.
A iniciativa de al-Sharaa de buscar um entendimento com os americanos abre dois cenários: por um lado, devolvendo a Síria a um papel central, porém, ao mesmo tempo, criando crescente dependência política e militar a Washington.
No entanto, a reaproximação representa significativa oportunidade para ambos os países, pois marca o retorno de Damasco ao cenário mundial, fato que lhe confere renovada legitimidade internacional, confirmada pelo discurso de al-Sharaa nas Nações Unidas, em setembro passado. Por outro lado, a reaproximação também é importante para os Estados Unidos, pois permite que reconsiderem sua visão do regime do líder sírio como um pária e redescubram um interlocutor válido.
Numa perspectiva internacional, a reaproximação representa significativa oportunidade. A abertura de Damasco ao Ocidente, sua inclusão na coalizão anti-Isis e sua potencial participação nos Acordos de Abraão — com todas as complexidades do compromisso de Israel — marcam significativa mudança simbólica e estratégica. Surge, então, a questão: que papel a Síria pode desempenhar em uma estrutura de segurança liderada pelos EUA?
De acordo com declarações recentes de Damasco, a ideia não é aderir aos Acordos de Abraão, mas sim negociar um acordo de segurança mais limitado, com a expectativa de que Israel se retire dos territórios ocupados, após 8 de dezembro de 2024.
A ideia de manter relações equilibradas com várias partes interessadas internacionais, evitando conflitos desnecessários, parece ser um pilar da política externa do atual governo. De fato, desde dezembro de 2024, o governo sírio adotou uma política que poderia ser descrita como “zero problemas”.
Na realidade, isso não é totalmente novo para aqueles que acompanham a dinâmica síria dentro da antiga oposição: em anos anteriores, figuras proeminentes do Hayat Tahrir al-Sham (HTS), o grupo rebelde aliado à Al-Qaeda, destacaram princípios como “neutralizar”, ou seja, não antagonizar, potenciais adversários e construir “relações equilibradas” com atores externos interessados, evitando conflitos desnecessários, o que parece ser um pilar da política externa do atual governo.
Em termos de ordem regional, a Síria, liderada por al-Sharaa, apresenta-se como um país bem integrado em redes de parceria com países da região — da vizinha Jordânia aos Estados do Golfo — compartilhando inúmeros pontos de interesse com eles, principalmente a resolução de conflitos e a estabilidade regional.
Paradoxalmente, a transformação do HTS, grupo armado enraizado no setor jihadista mais extremista, torna-se a ferramenta política e diplomática capaz de oferecer a Washington a oportunidade de reconsiderar o paradigma da “Guerra ao Terror”, num momento em que os limites e os efeitos contraproducentes dos paradigmas tradicionais estão sendo cada vez mais discutidos abertamente.
















