ABI e entidades veem ‘tanqueciata’ de Bolsonaro como ameaça

Desfile com carros blindados acontece na Esplanada dos Ministérios exatamente no dia da votação da PEC do Voto Impresso na Câmara.

No mesmo dia em que está prevista a votação, no plenário da Câmara dos Deputados, da PEC 135/2019, que torna obrigatório o voto impresso no país (proposta inicialmente rejeitada em comissão sobre o assunto), a Marinha realizou desfile militar com veículos blindados e armamentos (apelidada em redes bolsonaristas como “tanqueciata”) na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, a caminho do Centro de Instrução de Formosa, em Goiás, onde haverá treinamento de militares. O presidente Jair Bolsonaro acompanhou o evento da rampa do Palácio do Planalto, onde recebeu o convite para comparecer a uma demonstração operativa que será realizada em 16 de agosto. Nota divulgada na noite de ontem pelo Comando da Marinha destaca que a “entrega simbólica foi planejada antes da agenda para a votação da PEC 135/2019 no Plenário da Câmara dos Deputados, não possuindo relação com a mesma, ou qualquer outro ato em curso nos Poderes da República”.

Essa é a versão oficial. Para a Associação Brasileira de Imprensa, sindicatos e parlamentares, entretanto, o evento foi uma tentativa de intimidação.

Em nota assinada por seu presidente, Paulo Jeronimo, a ABI diz que “numa tentativa de intimidar os deputados para aprovarem a volta do voto impresso nas eleições, a sua atual obsessão autoritária, o presidente Jair Bolsonaro levou à Esplanada dos Ministérios um comboio com carros blindados. A justificativa estapafúrdia para o disparate foi a entrega ao presidente – pela caravana de tanques de guerra e veículos lança-mísseis! – de um convite para que assistisse a um exercício de manobras militares, realizadas desde 1988, sem nenhum exibicionismo bélico, depois de passar diante do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. É inaceitável que as Forças Armadas – instituições que devem ser preservadas – se deixem aviltar por Bolsonaro, que as trata como brinquedinho seu. Se a razão de aceitarem essa situação é o fato de receberem milhares de cargos no governo, fartas vantagens materiais e oportunidades de negócios para seus integrantes, perderão o respeito da sociedade.”

Também o Sindicato dos Trabalhadores do Poder Judiciário Federal no Estado de Minas Gerais (Sitraemg) divulgou nota que diz repudiar “a torpe tentativa do Governo Federal de intimidar a democracia brasileira ao promover um descabido desfile de tanques de guerra. Trata-se de mais uma demonstração do projeto de poder autoritário tão cobiçado pelo presidente Jair Bolsonaro e já demonstrado em outras situações ao longo de seu mandato. Atualmente, além dos ataques à urna eletrônica e constantes ameaças à realização das eleições de 2022, o governo tenta minar as instituições, esvaziar a prestação de serviços públicos para a sociedade e conquistar o direito de distribuir cargos estratégicos – planos escancarados no texto da reforma administrativa (PEC 32/2020).”

Ao abrir a sessão da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia, nesta terça-feira, o presidente do colegiado, senador Omar Aziz (PSD-AM), disse que “o papel das Forças Armadas é defender a democracia, não ameaçá-la”.

“É um absurdo inaceitável. Não é um teatro sem consequências, mas um ataque frontal à democracia que precisa ser repudiado. Desfiles como esse serviriam para mostrar força para conter inimigos externos que ameaçassem nossa soberania, o que não é o caso. As Forças Armadas jamais podem ser usadas para intimidar sua população, seus adversários, atacar a oposição legitimamente constituída. Não há nenhuma previsão constitucional para isso”, disse Aziz.

Em seu Twitter, o senador Randolphe Rodrigues (Rede-AP) publicou: “Alguns avisos ao Sr. inquilino do Palácio do Planalto: 1) Colocar tanques na rua não é demonstração de força, e sim de covardia; 2) Os tanques não são seus, pertencem à Nação; 3) Quer tentar golpe Sr. @jairbolsonaro ? É o crime que falta para lhe colocarmos na cadeia.”

Ontem, partidos políticos entraram na Justiça para tentar impedir o desfile, mas sem efeito. Também nesta segunda-feira, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), afirmou que não apoia a demonstração e que, se os deputados quiserem, a votação sobre o voto impresso pode ser adiada. Entretanto, ele não acredita que o desfile tenha relação com a votação. “No país polarizado, isso dá cabimento para que se especule algum tipo de pressão. Entramos em contato com o presidente Bolsonaro, que garantiu que não há esse intuito. Mas não é usual, é uma coincidência trágica dos blindados para Formosa. Isso apimenta este momento”, afirmou.

 

Com informações da Agência Brasil

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