Acabou o interpessoal?

Tive uma experiência pessoal recente interessante. Na busca hercúlea por um apartamento próximo à nova escola de meus filhos em SP, me vi inundado de ofertas de preços incorretos na internet, obrigações de aceites de cookies no meu celular, referências cruzadas erradas para ofertas alternativas de apartamentos e preços desatualizados. Na parte negocial, as ofertas dadas pelos sistemas das imobiliárias não tiveram resposta, incluindo as que mandei no preço próximo ao sugerido. Enfim, caos e frustração no mundo do algoritmo e do app.

Parti então para o modelo “old school” na visita do apartamento, e imagina quem estava no local para me receber? O proprietário, lógico. Ele não estava à toa. Estava lá para mapear o potencial interessado, sacar seu estilo, seu zelo pela propriedade alheia e seus valores. O negócio foi fechado literalmente três minutos após a visita.

O que este episódio me convida a refletir é o que todos já sabemos, mas, afundados na resolução das infinitas buchas pessoais e profissionais do dia a dia, esquecemos. O interpessoal conta. Avaliar ambiente com nossos olhos conta. Analisar e perceber o outro conta.

Tanto a abordagem matemática e do algoritmo quanto a análise pessoal são passíveis de erros e correções. No âmbito profissional, processos de fusões e aquisições, vendas de empresas e transformações não são distintos do episódio que mencionei no primeiro trecho do artigo.

Não basta ter track record e técnica em operações de fusões e aquisições, principalmente no middle market, onde a empresa e o dono se confundem o tempo todo. A empresa é obra-prima e filha do dono(a) ao mesmo tempo.

É muito comum as grandes empresas optarem por “placas” conhecidas na hora de contratação pois ali a dinâmica é distinta. O executivo está escolhendo uma placa que atende às necessidades da empresa, mas não raro, também precisa se proteger ao selecionar a mesma placa perante seu comitê ou conselho.

Na empresa middle, o que prepondera é a empatia. O sensor aranha do contratante ao avaliar o contratado é de achar que aquele desconhecido pode se tornar uma pessoa de confiança no espaço de tempo curto de forma a atender suas demandas mais prementes. Lógico que o técnico é também condição.

O mundo híbrido chegou para ficar, o ensino, o trabalho, as empresas vão conviver com seus sistemas e algoritmos. O distanciamento pessoal da Covid é um acelerador de algo que já vinha acontecendo com a tecnologia. Para aquelas da velha guarda resta se adaptar ao mundo em movimento. Porém, independentemente da idade ou geração, o indivíduo que tiver capacidade interpessoal sobreviverá com tranquilidade em um ambiente dominado pelo transacional e de certo aleijamento emocional das gerações mais novas. No fim das contas o pessoal, sempre pesa em algum grau, em qualquer processo decisório de nossas vidas profissionais.

 

Marco França é sócio da Auddas.

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