Acesso ao livro e inclusão social

Opinião / 12:22 - 6 de fev de 2003

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Nas maiores economias do mundo, as taxas históricas do nível de emprego e inclusão social têm efetiva congruência com os índices de leitura. Na Alemanha, por exemplo, para população de 82,2 milhões de habitantes, são produzidos 424 milhões de exemplares de livros, média de 6,3 volumes por habitante/ano; na França, são sete livros por habitante/ano e na Itália, cinco (fontes: CBL/Cerlalc/Unesco e Sindicato dos Editores da França e Itália). Nos Estados Unidos, são vendidos anualmente 2,2 bilhões de exemplares (fonte: Book Report/The Christian Science Monitor), para 276,2 milhões de habitantes, o que representa média de 8,2 livros por habitante/ano. Pode-se aludir, por meio de um raciocínio direto, que um povo que ganha mais compra mais livros, assim como bens de consumo de um modo geral. Embora haja muita verdade nesta análise, não se pode ignorar que o nível de desenvolvimento das nações tem estreita relação de causa-efeito com a cultura, a informação e o conhecimento, cujo grande vetor, desde a invenção do tipo móvel por Gutenberg, em meados do Século XV, tem sido a comunicação impressa. A facilidade do acesso à informação estimula a sua procura. Coincidência ou não, após a venda, numa feira em Frankfurt, na Alemanha, da bíblia de Gutenberg (primeiro livro impresso), o número de pessoas alfabetizadas (cerca de 8 milhões), dentre as 50 milhões que habitavam a Europa de então, mais do que duplicou no curto espaço de dois anos. A comunicação impressa, ou seja, o conjunto de livros, jornais e revistas, continua fundamental como mídia da informação, cultura e conhecimento. Segundo demonstra pesquisa global do maior fabricante mundial de máquinas e equipamentos de impressão, a mídia impressa representa 70% da comunicação no mundo. Só em 2010 será superada pela eletrônica, numa proporção equilibrada (49% contra 51%). Porém, com o crescimento da demanda, o mercado editorial/gráfico, em números absolutos, será muito maior do que hoje. Também indica um futuro promissor, resultado de pesquisa do maior grupo gráfico do mundo: os mais velhos acham que os jovens preferem mídias eletrônicas; os jovens, porém, afirmam não abrir mão da comunicação gráfica e dos livros. Aqui no Brasil, onde os índices de leitura parecem manter-se, quase que por inércia, em 2,3 exemplares por habitante/ano, não se pode mais aceitar o estigma de país que não lê, resignando-se a esta condição como se fosse ela um desígnio inexorável do destino ou simplesmente uma conseqüência negativa de nossas intermitentes desventuras econômicas. Muito além de tal atitude passiva, é necessário trabalhar no sentido de que o acesso ampliado ao livro e à mídia gráfica seja um dos fatores eficazes de um novo processo de desenvolvimento econômico e social. Para isso, são fundamentais algumas estratégias e ações: realizar campanhas permanentes de incentivo ao hábito de leitura; manter, na totalidade dos mais de 5 mil municípios brasileiros, bibliotecas públicas com acervo mínimo de obras de ficção e não-ficção, didáticas e paradidáticas; estimular a produção das pequenas editoras; viabilizar o mercado das livrarias de pequeno porte, em especial nos bairros e cidades mais afastados dos grandes centros de consumo; ampliar o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD); eliminar barreiras legais e/ou burocráticas injustificadas que prejudiquem o mercado editorial e dificultem o acesso da população ao livro. Como é possível notar, nesta grande e abrangente lição de casa há desafios relativos a ações de mercado, mobilização política junto aos poderes constituídos e articulação do setor editorial com todos os outros segmentos da cadeia produtiva do livro. Tal tarefa - embora o estímulo à cultura e ao conhecimento deva ser missão compartilhada do governo e de toda a sociedade - está diretamente atrelada às responsabilidades prioritárias da Câmara Brasileira do Livro (CBL), uma das entidades representativas do mercado editorial brasileiro. No contexto da globalização, as entidades de classe não devem manter a ortodoxa postura de representatividade passiva de um setor de atividade. Mais do que nunca, precisam ser pró-ativas no sentido de estimular, defender, ter peso político e até mesmo constituir-se em fator de desenvolvimento e fortalecimento do mercado em que atuam seus associados. É necessário que as entidades de classe, a exemplo do que algumas já vêm fazendo, assumam definitivamente este novo papel que lhes cabe no universo da nova economia mundial e brasileira, em especial no sentido de estabelecer novos paradigmas para seus respectivos mercados. Oswaldo Siciliano Economista, livreiro e editor. osiciliano@siciliano.com.br

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