Ações caras e ações baratas

Harold Thau ensina sobre como avaliar ações caras e baratas com insights de um especialista em mercado de capitais.

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Conversamos sobre ações caras e ações baratas com Harold Thau, sócio da TÉCNICA, empresa de análise e consultoria de mercado de capitais.

Quando uma ação está cara ou está barata?

Para que se determine que uma ação está cara ou barata é preciso analisar os fundamentos da companhia. Em termos de definição, uma ação está cara quando seus múltiplos de mercado estão acima do patamar médio de outras empresas do mesmo setor. Outra definição, ainda melhor que essa, é o preço justo da companhia calculado através de um modelo desenvolvido pelo professor Aswath Damodaran, que trata do fluxo de caixa operacional descontado, o que os analistas e investidores chamam de valuation.

Segundo esse modelo, se uma empresa está cotada a 10 e o seu valuation é 15, ela está, relativamente, barata. Da mesma forma, se o valuation é 10 e ela está cotada a 15, ela está, relativamente, cara. Não é pelo valor absoluto na Bolsa que se avalia se uma ação está cara ou barata, e sim pelo seu preço justo. 

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O que é o preço justo?

Com certeza, você já ouviu falar de laudos de avaliação econômica de empresas. O objetivo desses laudos é fazer com que os cotistas ou acionistas, dependendo do tipo de empresa, saibam o seu valor. Isso porque é muito comum os controladores ou sócios acharem que a sua empresa vale um determinado valor, mas quando são questionados sobre o motivo dessa “avaliação”, eles não sabem defini-la, pois trata-se de uma sensibilidade.

Para que se chegue, de forma técnica, no valor de avaliação de uma empresa é preciso elaborar um laudo de avaliação econômica. Por exemplo, os laudos de avaliação utilizados em programas de desestatização no Brasil seguiram os princípios do professor Damodaran, que prega que para se determinar o valor de uma companhia é preciso relacionar premissas e projetar o seu fluxo de caixa operacional futuro para verificar se ela apresentará lucro ou prejuízo. Com isso, esse fluxo de caixa é trazido para valor presente com a aplicação de uma taxa de desconto.

Essa taxa pode ser definida como o custo de oportunidade. Ela possui dois componentes: o custo de capital de terceiros e o custo de capital próprio. Fazendo a ponderação da estrutura de capital da companhia, chega-se ao WACC (Weighted Average Cost of Capital/Custo Médio Ponderado de Capital), que é a taxa pela qual os fluxos de caixa futuros serão descontados para que se encontre o valor presente.

Tendo o valor presente, soma-se os ativos não operacionais e as aplicações financeiras, e desconta-se a dívida financeira da empresa. Em grandes linhas, esse é modelo para se chegar ao valor de uma empresa (valuation).

Um ponto importante é que nós fazemos o acompanhamento fundamentalista de mais de 80 empresas e calculamos o preço alvo para grande parte delas, o que nos faz chegar a uma média setorial e uma média geral. Pelo nosso cálculo, hoje a bolsa brasileira está sendo negociada com um desconto na ordem de 30% em relação ao preço justo das ações, ou seja, ela está, relativamente, barata. Isso não quer dizer que a Bolsa, necessariamente, vai subir 30% da noite para o dia, mas ela pode chegar, em algum momento, ao seu preço justo

Já faz um bom tempo que os analistas dizem que a Bolsa está com desconto, mas ela não levanta. O que explicaria essa situação?

Existem algumas variáveis que podem estar impactando. Nós tivemos uma troca de governo, o que cria incertezas. Nós também temos a questão do déficit público, que eu considero o principal nó da economia brasileira, pois, historicamente, ele está numa trajetória ascendente, o que impacta na dívida pública federal em relação ao PIB. Esse crescimento está relacionado à alta taxa de juros praticada pelo Banco Central.

Outra preocupação é que nós tivemos uma elevação substancial das taxas de juros internacionais. Isso faz com que um investidor estrangeiro analise a possibilidade de investir em títulos públicos ou privados no seu país de origem e comece a sair da bolsa brasileira, inclusive da bolsa do seu próprio país. Neste ano, as únicas bolsas que estão com um bom desempenho, mas que já começaram a devolver um pouco, são a alemã e a japonesa.

Está havendo uma migração de ativos de renda variável para ativos de renda fixa, que, em tese, possuem um risco próximo de zero, caso se aplique corretamente, enquanto a Bolsa sempre terá risco associado. É por isso que o preço das ações, já há algum tempo, não vem se aproximando do seu preço justo.

Quando vale a pena investir numa ação que está cara e numa ação que está barata?

Pelo prisma que passei, eu não recomendo investir numa ação que está cara. Eu investiria numa ação barata, especialmente quando o seu preço justo está muito acima do seu preço em Bolsa.

Mas, lógico, existem variáveis que, às vezes, o investidor e o próprio analista não conseguem identificar corretamente. Por exemplo, o Pão de Açúcar e o Assaí eram uma empresa só, sendo que o valor em Bolsa não conseguia captar o valor justo da companhia, pois havia uma atividade com uma margem mais baixa, nesse caso o varejo, e uma atividade que vinha com uma forte expansão, nesse caso o atacado. 

Quando o grupo fez a cisão, houve uma valorização extraordinária do somatório, pois o mercado começou a avaliar melhor as duas companhias. Particularmente, eu não gostava de participar do varejo do Pão de Açúcar, mas gostava de participar do atacado, porém, como as duas operações estavam somadas numa companhia, eu não queria investir.

Outro caso são as incorporações. Quando a BM&F foi incorporada pela Bovespa, isso gerou uma valorização relativamente forte, inclusive pela questão fiscal.

Voltando ao Pão de Açúcar, recentemente a empresa vendeu o Éxito, um grupo de supermercados relativamente forte na Colômbia. Num primeiro momento, o mercado apostou que aquilo poderia valorizar as suas ações, pois haveria um encaixe de recursos, mas logo depois percebeu que o Éxito era uma importante fonte de resultados para o Pão de Açúcar. Como a venda vai impactar no fluxo de caixa futuro, isso fez com que as suas ações caíssem.

A análise de oportunidades na Bolsa não é uma conta de 1 + 1 = 2. As premissas utilizadas no cálculo do fluxo de caixa de uma empresa mudam de analista para analista, sem contar que a premissa que era válida há 6 meses pode não ser mais válida hoje.

Um investidor deve se preocupar com o preço de uma ação na Bolsa?

Um investidor não deve se preocupar muito com isso, achando que uma ação cotada a R$ 1 está barata e uma ação cotada a R$ 60 está cara. Esse não é o caminho. A própria B3 possui uma certa parametrização para isso.

Quando uma ação está muito cara, a B3 diz que o ideal é que ela estivesse em torno de R$ 20 a R$ 40. Isso pode induzir a empresa a desdobrar suas ações para ganhar mais liquidez, o que permitiria o acesso de mais investidores ao lote padrão negociado na Bolsa. Por outro lado, quando uma ação cai abaixo de R$ 1, e fica nesse patamar por um determinado período, o regulamento da B3 determina o grupamento das ações.

Um investidor vai ter mais acesso a lotes padrões das ações mais baratas em termos de valor absoluto, mas nada impede que ele negocie no mercado fracionário. O brasileiro não gosta muito desse mercado, mas nas bolsas mundiais isso é muito comum. Ele pode fazer um pé-de-meia comprando aos poucos uma ação cotada a R$ 60. Minha mensagem é que preço baixo não quer dizer que a ação está barata, da mesma forma que preço elevado não quer dizer que a ação está cara.

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