Ações do Itaú e do Bradesco são boas opções de longo prazo

Após um 2020 excessivamente turbulento que exigiu mudanças nas perspectivas do mercado financeiro no Brasil, a expectativa é de recuperação a partir do segundo semestre deste ano. Antes, o consenso do mercado era que a rentabilidade só voltaria ao normal em 2022. Porém, as medidas tomadas para aumentar a liquidez do sistema financeiro durante a pandemia fez mudar um pouco essa percepção. Os dois maiores bancos privados do país, o Itaú Unibanco e Bradesco divulgaram os resultados do quarto trimestre e dos últimos 12 meses. O quarto trimestre representou uma retomada de fôlego dos dois bancos, mas na comparação anual – dos resultados líquidos de 2020 com 2019 – o Itaú caiu 35% e o Bradesco 25%.

Para repercutir esses números, a reportagem do Monitor Mercantil ouviu dois especialistas: Victor Bueno, analista de investimentos da Top Gain, startup de educação financeira e análises de mercado; e Bruno Komura, estrategista de renda variável da Ouro Preto Investimentos, gestora de recursos de terceiros, especializada em hedge.

“Todos sofreram e tiveram desempenhos piores que em 2019, mas o Itaú mais que o Bradesco fazendo a comparação ano a ano”, resume Bueno. Em relação a comparação trimestral (do 4° trimestre), ele diz que há sinais muito mais positivos de reversão, principalmente para o Bradesco, que conseguiu ter lucro líquido 35% maior comparado ao trimestre anterior. O banco registrou lucro líquido recorrente de R$ 6,8 bilhões no quarto trimestre, o maior resultado trimestral da história da instituição, e 2,3% superior ao que foi verificado um ano antes. “Foi a primeira vez na história que o Bradesco teve resultados líquidos superiores ao Itaú depois da combinação com o Unibanco (em 2008 o Itaú se uniu ao Unibanco, ocorrendo a maior fusão da história do país)”, cita Bueno.

De acordo com o Banco Central, em um ano em que o Produto Interno Bruto (PIB) deve registrar uma contração da ordem de 4,5%, o saldo de crédito do sistema financeiro apresentou um crescimento de 15,5%”.

“O setor apresentou ganhos no final do ano passado (dados mensais divulgados pelo Banco Central atestam aumento do crédito) houve ampliação das carteiras de crédito e com um nível de inadimplência bastante controlado”, analisa Bruno Komura.

O índice de calotes no sistema financeiro chegou no final de 2020 em 2,8%. A queda no nível de calotes é atribuída aos programas de renegociações realizadas pelos bancos durante a pandemia. Sobre a atuação do Itaú e do Bradesco, Komura atesta que há um interesse de alocar nesses dois bancos. “Esses bancos são os pagadores mais consistentes de dividendos (quando parte do lucro de uma empresa distribuído entre seus acionistas). Eles distribuem mensalmente e as distribuições referentes ao trimestre ou anuais são bastante relevantes”, assinala. Ele acredita que os dividendos desses bancos podem se tornar mais um atrativo para os investidores.

Investidor

Diante dos resultados apresentados pelo Itaú e o Bradesco, em qual dos dois bancos vale a pena investir hoje? Para Bueno, isso vai depender das pretensões de cada investidor. “Se a gente pensar em renda passiva, todos os bancos tiveram que segurar em 2020. Foi um ano muito ruim de muitas provisões e inadimplência de clientes. Isso afeta o lucro líquido. Os bancos tiveram que reter os resultados e não distribuíram tantos dividendos para os seus acionistas”, relata.

No caso do Itaú, exemplifica o analista, mesmo tendo tido um resultado inferior ao do Bradesco, o banco teve uma proporção de pagamento de dividendos maior. “O Itaú pagou nos últimos 12 meses 4,66% de dividendos e o Bradesco 2,8%

Perspectivas

“O mix da carteira de crédito do Itaú está indo em direção ao que os outros bancos estão fazendo que é aumentar o foco em pessoa física e em pequenas e médias empresas onde a margem é um pouco maior”, explica. Segundo Komura, esse segmento é um dos principais drives de crescimento de crédito atualmente.

Na opinião dele, o que pode contrabalancear a questão da receita um pouco menor é o negócio da XP Investimentos. Em dezembro passado, o Itaú vendeu 5% de suas ações na XP, dando início ao processo de saída da maior plataforma de investimento do país, três anos após ter feito a compra de fatia da companhia. O banco tinha participação de 40,52% na corretora. Excluindo os 5%, o restante será aplicado em uma nova empresa, batizada de Newco. Com a operação, cada acionista do Itaú receberá a mesma quantidade de ações da nova companhia — que também será negociada na B3 — e decidir individualmente se pretende manter ou não participação na XP.

Bradesco

Em 2020, houve uma queda de 2,6% nas receitas do Bradesco, para R$ 32,747 bilhões. “O banco tem uma carteira focada em pessoa física e pequenas e médias empresas, o que se traduz em rentabilidade boa”, lembra Komura.

Outro ponto a se destacar em relação a instituição é que a receita do Bradesco é bastante diversificada. Uma parte do crédito vem das atividades de banco e a outra da unidade de seguro, o que dá bastante resiliência para a carteira, acrescenta o estrategista.

Na opinião do profissional da Ouro Preto Investimentos, o que precisa ser monitorado por todo o setor é a questão do risco. “Será preciso analisar a provisão para devedores duvidosos (PDD). Todo mundo no mercado está esperando onde o nível de inadimplência vai chegar”, explica. O consenso hoje é que esse nível vai continuar em ritmo mais “saudável”. “Na pré-crise tínhamos um nível de 3% de inadimplência da carteira”. A previsão é que esse nível fique um pouco mais alto, algo entre 4% a 5%, mas isso ainda é incerto. “Depois das renegociações (dos bancos), do fim do auxílio e da ajuda do governo em relação a crédito, veremos de fato onde essa margem de inadimplência vai se estacionar”.

Komura acredita que isso só deve ser avaliado no segundo trimestre ou no começo do terceiro trimestre. “Essa é uma questão chave que vai afetar diretamente os resultados dos bancos. Se você tiver uma inadimplência mais alta que o esperado, a reversão da PDD será menor e o lucro continuará bastante deprimido”.

“Mas se a gente tiver uma notícia positiva que a inadimplência está se estacionando em um nível saudável que não vai ter um pico no meio do ano, então pode ser que, em 2021, os bancos comecem a fazer as reversões das provisões. A reversão acaba se traduzindo em lucro”, explica.

Em resumo, em curto prazo o Bradesco deve ter uma performance melhor que a do Itaú, embora os riscos sejam parecidos para os dois. Mas pelo lado da receita de onde eles conseguem gerar caixa, a do Bradesco parece melhor. “Veremos no primeiro e segundo trimestre”, diz.

Dividendos

No caso do Itaú, desde julho de 1980, o banco vem remunerando os acionistas por meio de pagamentos mensais e complementares, sendo que esses últimos têm ocorrido, historicamente, duas vezes ao ano, e são igualmente distribuídos para os acionistas ordinaristas (quem têm ações ON) e preferencialistas (quem têm ações PN). A prática de pagamento de dividendos e JCP do Itaú Unibanco prevê a distribuição de, no mínimo, 35% do lucro líquido recorrente anual, sendo que o valor total a ser distribuído a cada ano é fixado pelo Conselho de Administração.

Em dezembro de 2020, o conselho de administração do Bradesco aprovou o pagamento de R$ 3,5 bilhões em juros sobre o capital próprio complementares. O valor bruto foi de R$ 0,377521225 por ação ordinária e R$ 0,415273347 por ação preferencial. O pagamento ocorreu em 7 de janeiro de 2021.

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