Acorda, Brasil!

Por Elaine Marcial.

Uma entrevista com a Dra. Mariângela Simão, vice-diretora da Organização Mundial de Saúde (OMS) da área de medicamentos, vacinas e produtos farmacêuticos, veiculada pela CNN, me fez refletir sobre quando o nosso país vai acordar para pensar e agir estrategicamente de forma antecipativa.

Nessa entrevista, a vice-diretora da OMS explicava as dificuldades enfrentadas na distribuição de vacinas contra a Covid-19 ao redor do mundo, por meio do Covax Facility – consórcio criado pela OMS, do qual o Brasil é um dos participantes.

A Dra. Mariângela informou que alguns países, como os Estados Unidos, a Índia, e outros países europeus somente vão disponibilizar o imunizante após terem vacinado sua população. O “excessivo nacionalismo”, palavras utilizadas pela entrevistada, no meu entender, é plenamente compreensível frente ao estrago social e econômico que uma pandemia causa em um país.

Não estou analisando o mérito do comportamento desses países, nem pretendo entrar no debate de qual seria o comportamento ético adequado frente a humanidade, por isso existem organizações internacionais, para pensar no todo. Estou apenas mostrando, nas palavras de Nelson Rodrigues “a vida como ela é”: “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

As palavras dela me fizeram lembrar dos cenários que construímos em 2006, para a influenza aviária. Um dos pontos levantados foi justamente a alta probabilidade de falta de medicamento, como por exemplo do antiviral Tamiflu, ou de EPIs, não por falta de recursos para adquiri-los, mas porque os países iriam primeiro atender a sua população para depois exportar para os outros.

Essa não foi a primeira pandemia que a humanidade enfrentou e não vai ser a última. Frequentemente, temos que enfrentar surtos de doenças como as do H1N1 ou da dengue, provavelmente iremos nos deparar com outras novas doenças que assolarão uma sociedade que vive aglomerada em cidades. Sendo assim, temos que ter clareza de quais os insumos estratégicos de saúde que o Brasil tem que ser capaz de produzir, em curto espaço de tempo. Desenvolver competências, inclusive de pesquisa e desenvolvimento, que garantam o desenvolvimento e a produção em larga escala e a baixos custos, de forma ágil.

Que essa pandemia faça o país acordar e tomar consciência de que não podemos ficar nas mãos de um único fornecedor, muito menos de fornecedores estrangeiros para insumos estratégicos, independentemente da área.

Se uma questão for considerada estratégica para o país, temos que ter a competência para desenvolver, aqui no Brasil, de forma eficiente, a produção desses insumos e produtos estratégicos. Planos de contingência devem estar prontos para serem acionados ao surgimento de eventos inesperados. Temos que parar de apagar incêndios e planejar com antecedência, afinal, competências não são desenvolvidas da noite para o dia.

Temos que ter essa lista de quais são esses insumos, produtos e competências estratégicas, em especial, as que serão demandadas no futuro, e investir nesse desenvolvimento.

Mas fico pensando… Já sabemos quais são os insumos, produtos e competências estratégicas? Se sabemos, por que não nos preparamos para acontecimentos adversos? Onde estão os planos de contingência? Por que o desenvolvimento dessas competências não é incentivada? Acorda, Brasil!

 

Elaine Marcial é doutora em Ciência da Informação e coordenadora da Pós-Graduação em Inteligência, Cenários e Gestão Estratégica, da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília.

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