Adeus a Cecil Thiré

Por Paulo Alonso.

(deletar) Últimos Artigos (sem foto), Opinião / 17:48 - 15 de out de 2020

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Ter sido filho da belíssima e talentosa atriz Tônia Carrero não deve ter sido nada fácil para Cecil Aldary Portocarrero Thiré, que, aos 77 anos, nos deixou na semana passada, depois de um longo período doente, sofrendo do Mal de Parkinson. Ator e diretor, atuou, com grande desenvoltura, no cinema, no teatro e na televisão, além de ter sido professor de interpretação. Filho do artista plástico Carlos Arthur Thiré e pai dos atores Miguel, Carlos e Luiza, do casamento com Norma Pesce, e de João, da união com Carolina, Cecil estava casado, desde 2006, com Nancy.

Desde muito pequeno, teve de se acostumar à ausência da mãe, uma das maiores estrelas da dramaturgia nacional, sempre envolvida com muitos compromissos profissionais. Essa ausência fez com que o menino Cecil crescesse muito fechado, reservado, tímido e quieto. Aos 17 anos, todavia, resolveu seguir os passos da mãe, já uma consagrada atriz, indo estudar com Adolfo Celi, e passando a trabalhar de forma incessante, a partir da década de 60, carregando sempre consigo o peso de inicialmente ser apenas o filho da Tônia. Por essa razão, Cecil precisou durante muitos anos fazer análise, para superar esse estigma e mostrar ao público, aos colegas de profissão e aos diretores que era um artista múltiplo e de grande talento e com raro brilho intelectual.

Aos 18 anos, teve seu primeiro trabalho profissional, como assistente de direção de Ruy Guerra, em Os Fuzis. Um ano mais tarde, prodígio, dirigiu o seu primeiro filme, o curta-metragem Os Mendigos. Em 1967, assinou a direção do longa-metragem O diabo mora no sangue e, depois, O Ibrahim do subúrbio. Como ator, esteve no elenco de mais de 20 filmes, tendo começado aos nove anos, numa pequena aparição em Tico-Tico no fubá, estrelado pela mãe famosa.

Cecil iniciou-se na direção teatral, em 1971, em Casa de Bonecas, de Ibsen. Em 1975, dirigiu A noite dos campeões, de Jason Miller, conquistando o cobiçado Prêmio Molière. Seguiu ininterruptamente com trabalhos no teatro como ator e diretor, às vezes como ambos, até 1984. Nesse ano, afastou-se dos palcos, para se dedicar ao ensino de teatro, retornando dez anos depois, em três montagens consecutivas. São mais de quarenta peças como ator e outras tantas como diretor. Da experiência como professor, nasceu o livro A carpintaria do ator, de 2013. Um texto de extremo valor, com muitas lições importantes para os que estão se iniciando nesse ofício.

Em sua carreira artística, um dos principais trabalhos de Cecil foi na novela Roda de Fogo, de 1986, quando interpretou o vilão homossexual Mário Liberato, além de outros grandes projetos na telinha, acumulando mais de 20 papéis. Esteve também em O Espigão, Escalada, Sol de Verão, Champagne, Top Model e A Próxima Vítima; nesta última viveu Adalberto Vasconcelos, o grande assassino da trama. O sucesso desse personagem pôde ser medido por Cecil nas ruas, pois era sempre abordado pelos fãs que não se cansavam de lhe pedir autógrafos e permissão para fotografias. Mario Liberato e Adalberto Vasconcelos foram certamente os dois maiores papéis que encarnou na telinha e que lhe renderam grande popularidade.

E foi justamente nessa época que eu tive o prazer de conhecer esse grande artista, entrevistando-o em várias ocasiões, seja por seus papéis na televisão, seja por causa das suas interpretações nos palcos dos teatros. Tive a satisfação de entrevistar Tônia e Cecil, em duas ocasiões. Lembro-me que as entrevistas renderam muito, com o contagiante humor de Cecil e a delicadeza dos gestos de Tônia, encantadora.

A preparação de elenco de Pai Herói coube a Cecil. Na sequência, atuou em Quem É Você, Zazá, Labirinto, A Muralha, Os Maias, A Padroeira, Kubanacan e Celebridade. Cecil deixou a Globo em 2006, tendo também participado do humorístico Zorra Total. Era, igualmente, um humorista nato.

Longe da TV desde 2012, seu último trabalho foi na trama Máscaras, da TV Record, onde também esteve em Poder Paralelo, Vidas Opostas e Cidadão Brasileiro.

Desde a década de 1990, Cecil participava do espetáculo A Paixão de Cristo, apresentado em Angra dos Reis e nos Arcos da Lapa, no Rio de Janeiro, interpretando o papel de Pôncio Pilatos.

Cecil, dinâmico e criativo, dono de um humor fino e permanentemente atento à atualidade, foi responsável pela implantação, em 1986, da Casa da Interpretação, na Casa das Artes, em Laranjeiras, e foi fundador da Oficina de Atores, da Rede Globo. Ministrou regularmente cursos de interpretação nessas e em outras instituições, tendo colaborado na formação de atores em várias cidades do país.

Diversificando suas ações para além da dramaturgia, foi proprietário de um sítio em Piraí, onde criou gado, e de um restaurante, em Rio das Ostras.

A última vez que vi o ator e diretor foi há quase dois anos, no velório de Tônia, no Theatro Municipal, quando lá estive para homenageá-la. Ele já estava debilitado e andava em cadeira de rodas. Na ocasião, a neta Luiza fez uma belíssima homenagem à avó, com palavras que emocionaram a todos os presentes. Uma Família espetacular, assim como são espetaculares todos os integrantes da Família do saudoso ator Paulo Goulart.

Tônia Carrero e Cecil Thiré já se reencontraram, certamente, em uma outra dimensão, e se juntaram à constelação de artistas que lá se encontra. Ambos, construíram suas trajetórias profissionais e de vida e deixam saudade nos seus fãs e no grande elenco de amigos que, nas despedidas de Cecil, não se cansou de enaltecer o seu profissionalismo e o seu amor à arte de bem interpretar e de dirigir.

Aplausos.

Paulo Alonso

Jornalista, é reitor da Universidade Santa Úrsula.

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