Adeus, Gilberto Braga, notável dramaturgo

Por Paulo Alonso.

E Gilberto Braga descansou, depois de alguns anos fora do combate e da dramaturgia, devido ao mal de Alzheimer. Apesar de esperado esse desfecho, sempre é muito triste quando se perde uma pessoa tão especial como o Gilberto, responsável por momentos e fases gloriosas da televisão brasileira.

Com talento extraordinário, esse grande contador de histórias, e com muita criatividade, prendia a atenção dos telespectadores com suas tramas sensacionais, tendo sempre a preocupação de escalar atores dos mais notáveis para encarnar seus personagens, que, pela força do texto e das interpretações, são lembrados até hoje.

Gilberto e Edgar Moura Brasil formavam um casal dos mais cordiais e fraternos e estavam juntos há quase 50 anos; casal dos mais receptivos e acolhedores; belos anfitriões, recebiam no apartamento do Arpoador, com acolhimento e alegria constantes. E, desde ontem, a televisão, as artes, os familiares, os amigos e sua legião de fãs estão entristecidos com o seu desaparecimento, aos 75 anos. Resta a todos a felicidade de ter com ele convivido, seja por meio das suas narrativas, seja pessoalmente.

Autor de novelas clássicas da TV brasileira como Dancin’ Days (1978), Vale Tudo (1988) e Celebridade (2003), e criador de vilões inesquecíveis, Gilberto Braga escreveu trabalhos verdadeiramente fantásticos, como Corpo a Corpo (1984), Rainha da Sucata (1990), da qual foi colaborador, e O Dono do Mundo (1991), além das minisséries Anos Dourados (1986) e Anos Rebeldes (1992).

Braga também foi indicado ao Emmy Internacional de melhor telenovela por Paraíso Tropical (2008). Sua última produção foi Babilônia (2015), exibida pela TV Globo, tida como “forte” pela crítica, pois abordava temas pouco tradicionais ao gênero, como homossexualidade e racismo.

Gilberto Braga nasceu no Rio de Janeiro, em novembro de 1945. Cursou a faculdade de Letras na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e começou a trabalhar dando aulas na Aliança Francesa. Era amante da língua, da cultura, da gastronomia e da história francesa.

Posteriormente, trabalhou como crítico de teatro e cinema do jornal O Globo. Estreou na Globo, como autor, em 1972, com uma adaptação de A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas, para um Caso Especial, protagonizado por Glória Menezes, que foi levado ao ar sob a direção de Walter Avancini e a supervisão de Oduvaldo Vianna Filho. A partir daí, escreveu mais Casos Especiais, dentre os quais destaca-se As Praias Desertas, protagonizado por Dina Sfat, Yoná Magalhães e Juca de Oliveira.

Sua primeira experiência em telenovela foi com Corrida do Ouro, em 1974, quando dividiu a autoria com Lauro César Muniz e Janete Clair. Criada a partir de uma notícia de jornal, a trama central era conduzida por cinco personagens femininos, protagonizados por Aracy Balabanian, Sandra Bréa, Renata Sorrah, Maria Luiza Castelli e Célia Biar, que precisavam cumprir determinadas tarefas para receber uma herança.

Em 1975, Gilberto Braga trabalhou na adaptação do romance Helena, de Machado de Assis. Ainda exibida em preto e branco, Helena iniciou o horário das 18h na Globo, sendo a primeira novela inspirada em um clássico da literatura brasileira. No mesmo ano, o autor adaptou também Senhora, de José de Alencar, para o mesmo horário.

O primeiro sucesso veio dois anos depois, com Escrava Isaura. Novela que rodou o mundo e fez de Lucélia Santos, a escrava Isaura, em belíssimo trabalho, um produto de exportação do Brasil por muitos países. Bombou na China.

Em 1977, Gilberto Braga escreveu Dona Xepa, inspirada na peça teatral homônima de Pedro Bloch. Protagonizada por Yara Cortes, a trama trazia a história de uma feirante que é abandonada pelo marido e cria sozinha dois filhos, vividos por Reinaldo Gonzaga e Nívea Maria. Os dois conseguem ascender socialmente, só que sentem vergonha da mãe.

No ano seguinte, estreando no horário nobre, Gilberto Braga escreveu um dos seus maiores sucessos: Dancin’ Days. Criada a partir de um tema sugerido por Janete Clair, a novela foi protagonizada por Sonia Braga e Joana Fomm, e trouxe a febre das discotecas para o Brasil. Dancin’ Days atingiu altos índices de audiência e ganhou uma reportagem na revista norte-americana Newsweek, que destacava a sua influência nos modismos.

Em 1980, Gilberto Braga escreveu Água Viva, que contou com a coautoria de Manoel Carlos. A novela mostrava a história de dois irmãos, Miguel e Nélson Fragonard, vividos por Raul Cortez e Reginaldo Faria, que disputam o amor da mesma mulher, Lígia, interpretada por Betty Faria.

No ano seguinte, abordando o tema do poder e da ambição, Gilberto Braga escreveu Brilhante, com a colaboração de Euclydes Marinho e Leonor Bassères, que também colaborou nas duas novelas que o autor escreveu em seguida: Louco Amor (1983), retratando o amor entre pessoas de classe sociais diferentes; e Corpo a Corpo (1984), baseada no tema da ascensão social e da vingança.

Em 1986, Gilberto Braga começou a escrever para minisséries na Globo com Anos Dourados, dirigida por Roberto Talma. Com uma reconstituição de época primorosa, a trama se desenvolve a partir de histórias de amor e conflitos familiares, tendo como cenário o Rio de Janeiro durante o governo de Juscelino Kubitschek. Além de autor, Gilberto Braga foi o produtor musical da minissérie.

Dois anos depois, Gilberto Braga escreveu, ao lado de Aguinaldo Silva e Leonor Bassères, a novela Vale Tudo, um dos principais marcos da história da teledramaturgia brasileira. Através da disputa entre uma mãe honesta, vivida por Regina Duarte, e sua filha mau-caráter, interpretada por Gloria Pires, abordou a questão da integridade ética no Brasil, lançando mão da crítica social e política.

Ainda em 1988, Gilberto Braga escreveu outro destaque da programação da Globo, a minissérie O Primo Basílio, adaptada da obra de Eça de Queiroz, com colaboração de Leonor Bassères e direção de Daniel Filho. No elenco, Tony Ramos, Marcos Paulo, Marília Pêra, Giulia Gam, entre outros.

Em 1990, colaborou na autoria da novela Rainha da Sucata, de Silvio de Abreu. No mesmo ano, foi convidado para cuidar da produção musical da minissérie A, E, I, O… Urca, de Doc Comparato, e assinou a supervisão de Lua Cheia de Amor, novela de Ana Maria Moretzsohn, inspirada em Dona Xepa.

Gilberto Braga escreveu, em 1991, O Dono do Mundo, novamente com a colaboração de Leonor Bassères, além de Ângela Carneiro e Ricardo Linhares. Retomando a temática de Vale Tudo, o autor tratou em O Dono do Mundo da questão da dignidade e da cidadania no Brasil contemporâneo. No ano seguinte, escreveu ao lado de Sérgio Marques a minissérie Anos Rebeldes, que mostrou as conturbadas décadas 1960 e 70 por meio de uma história de amor. O pano de fundo era a política, que dividia os personagens entre a militância, a luta armada, a clandestinidade e o movimento hippie.

Em 1994, Gilberto Braga manteve a crítica social ao escrever Pátria Minha, encerrando assim sua trilogia sobre corrupção no país (Vale Tudo e O Dono do Mundo). Na novela, o autor também abordou a questão da discriminação racial. Depois de quatro anos afastado da televisão, Gilberto Braga voltou, em 1998, com a minissérie Labirinto, primeira incursão do autor no gênero policial. No ano seguinte, retomou a produção de novelas com Força de um Desejo, que escreveu ao lado de Alcides Nogueira. Ambientada na segunda metade do século 19, a novela foi a primeira a abordar aspectos da cultura banto, de origem africana, através do núcleo dos escravos.

Em 2003, Gilberto Braga escreveu outro grande sucesso: Celebridade. A novela tinha no elenco Malu Mader, Cláudia Abreu, Fábio Assunção e Marcos Palmeira, e focava mais uma vez um tema atual e polêmico: a busca pela fama.

Quatro anos depois, Gilberto Braga voltou a escrever a novela das oito, desta vez em parceria com Ricardo Linhares. Em Paraíso Tropical (2007), os autores abordam alguns temas clássicos dos folhetins como a cobiça e o amor, sob a ótica dos diversos extratos sociais que convivem no bairro carioca de Copacabana. No elenco, Alessandra Negrini, que vive as gêmeas Paula e Thaís, Tony Ramos, no papel do empresário Antenor Cavalcanti, Gloria Pires, Fábio Assunção, Wagner Moura, entre outros. O autor considera a história das gêmeas – uma boa e a outra má – a mais bem-sucedida de sua carreira.

Gilberto Braga foi um dos maiores nomes da teledramaturgia do país, um construtor sonhos e de magias, de grandes personagens, de vilãs icônicas e fez, por meio da sua arte de escrever, importantes reflexões sobre o cotidiano brasileiro nas telas da televisão.

Um grande dramaturgo.

 

Paulo Alonso, jornalista, é reitor da Universidade Santa Úrsula.

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