Afinal quem ganha e quem perde com esta carestia?

Por Ranulfo Vidigal.

Popularidade política anda na contramão de inflação e desemprego

Há uma percepção generalizada que a atual inflação penaliza principalmente as famílias mais pobres, uma vez que se faz presente com grande intensidade em bens e serviços básicos, como energia elétrica, gás de cozinha, combustíveis, aluguéis e alimentos. É elevado o número de pessoas que voltaram a ter insegurança alimentar, a morar na rua, ou a usar o fogão a lenha. Esta inflação é, especialmente, perversa, mais um desemprego, um desalento e estagnação da renda, como mostrou o dado divulgado pelo Banco Central (IBC-Br) recentemente.

Este quadro inflacionário, por outro lado, gera ganhadores. A disparada do dólar, aumenta o preço de produtos e insumos importados, pressionando a inflação. Por outro lado, favorece os setores exportadores, como o agronegócio, mais interessado em exportar comida do que a ofertar no mercado doméstico, onde a fome se alastra. Também favorece quem tem ativos em dólar.

O aumento dos preços da energia elétrica também se relaciona diretamente com decisões políticas. Dentre elas destacam-se as de longo prazo, como a opção por enormes usinas hidrelétricas em lugar de empreendimentos menores e descentralizados, aumentando o impacto ambiental e a suscetibilidade a eventos climáticos.

A política do setor de óleo e gás também contribui para o rápido aumento dos preços. O país passa a exportar cada vez mais óleo bruto e a importar refinados. E a política de precificação da empresa, associando os preços dos combustíveis àqueles observados no mercado internacional (em vez de associá-los aos custos em moeda nacional), gera enorme pressão sobre a inflação, não só dos combustíveis, mas de toda a cadeia produtiva que deles depende.

São decisões políticas que impactam a inflação, gerando ganhadores e perdedores. A alta no dólar encarece alimentos importados e favorece a exportação, sobrando menos para a oferta doméstica. A comida fica cara, a fome se alastra, e o agronegócio exportador ganha. O aumento dos combustíveis e da energia elétrica favorece os acionistas das empresas produtoras, mas penaliza toda a população. A soma desses fatores impacta o preço dos aluguéis, favorecendo locadores em detrimento a quem precisa pagar pela moradia, de modo que centenas de milhares de pessoas moram nas ruas.

Resumo da ópera: a inflação atual é, em larga medida, determinada por decisões políticas desastrosas e perversas na medida em que penalizam as camadas mais pobres da população em favor de grupos privilegiados. Considerando que popularidade política anda na contramão de inflação e desemprego, a questão econômica vai dominar o debate para as futuras eleições de 2022 e gerar muita dor de cabeça para os políticos de plantão.

Ranulfo Vidigal é economista.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Artigos Relacionados

O cenário da construção civil para 2022

Por Victor Gomes.

‘Olhos de Água’, romance delicado e apaixonante

Por Paulo Alonso.

Agro, imóveis e criptomoedas manterão crescimento das fintechs em 2022

Por Renato Aragon (*) Devido ao surgimento de uma grande quantidade de fintechs nos últimos anos, não são raras as especulações sobre a possibilidade de...

Últimas Notícias

Electrolux lança desafio para arquitetos e designers de interiores

A Archademy, primeiro Market Network de Arquitetura e Design de Interiores do Brasil, abre inscrições para a edição do seu Archathon Electrolux 2022. O...

Gestão do Hopi Hari ganha na justiça e se mantém no parque

A gestão do Parque Temático Parque Hopi Hari acaba de obter decisão favorável, proferida pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, para...

Bancos chineses registram compra líquida de divisas em 2021

Os bancos chineses registraram uma compra líquida de divisas em 2021, pois a taxa de câmbio do iuan permaneceu geralmente estável e os fluxos...

RNI: Plano de negócio tem o melhor resultado dos últimos 7 anos

Prévia do 4T21 da construtora e incorporadora RNI, do grupo Empresas Rodobens, indica resultados superiores aos últimos sete anos. A empresa, que completou 30...

Chile quer renacionalizar cobre e bens públicos estratégicos

A campanha pela renacionalização do cobre e dos bens públicos estratégicos entregues às transnacionais durante o governo de Augusto Pinochet (1973-1990) tem sido impulsionada...