Afrouxamento monetário sem inflação é um bom sinal?

É preferível viver com juros mais altos e crescimento econômico.

Pela oitava vez consecutiva, o Banco Central decide reduzir a taxa básica de juros (Selic). Desta vez, de forma unânime, a Selic caiu para 2,25% ao ano, patamar recorde. Finalmente, o país começa a apresentar juros de primeiro mundo com inflação controlada. Mas este é um bom sinal?

A princípio, pode-se falar do sucesso do Sistema de Metas e Inflação (SMI) no Brasil. Os índices de preços mostram um cenário inflacionário controlado, ou melhor, houve deflação nos últimos meses, o que dá espaço para a retração dos juros sem impacto nos preços.

Segundo o IBGE, o IPCA de maio foi de -0,38%, enquanto a taxa registrada em abril foi de -0,31%. Essa é a menor variação mensal desde agosto de 1998 (-0,51%). No ano, o IPCA acumula queda de 0,16% e, nos últimos 12 meses, alta de 1,88%, abaixo dos 2,40% observados nos 12 meses imediatamente anteriores. A meta de inflação para este ano, definida pelo Conselho Monetário Nacional, é de 4%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.

Os motivos que possibilitam o corte dos juros e a inflação medida pelo IPCA estar bem abaixo da meta é que são a parte preocupante. Os economistas ouvidos pelo relatório Focus do Bacen projetam que o IPCA fique em 1,6% neste ano, abaixo do centro da meta de 2,5%. “No cenário híbrido, com trajetória para a taxa de juros extraída da pesquisa Focus e taxa de câmbio constante a R$4,95/US$, as projeções do Copom situam-se em torno de 2,0% para 2020 e 3,2% para 2021. Esse cenário supõe trajetória de juros que encerra 2020 em 2,25% a.a. e se eleva até 3,00% a.a. em 2021”, diz o comunicado do Copom.

O fato é que, além do câmbio, não há nenhum fator que pressione a inflação para cima. Pelo contrário, a indústria demonstra uma grande capacidade ociosa e o consumo está contido. As projeções são de forte contração econômica, e o Banco Mundial estima que o PIB brasileiro deva despencar 8% este ano. A mediana das projeções dos economistas é reajustada para baixo semana após semana e já se encontra em -6,5%.

O que ocorre no momento é a queda da confiança do consumidor, diante da retração da renda e aumento do desemprego. Sem perspectiva de melhora na economia no médio prazo, há um aumento da precaução e, por consequência da poupança e, mesmo com a Selic baixa e rendimento anual praticamente zero ou negativo, este comportamento não deve mudar. A Pesquisa IPC Maps estima retração no consumo deste ano de 5,39% em relação a 2019, a maior desde 1995.

Com a forte queda das vendas, as empresas lançam mão do corte de custos e despesas para garantir sua sobrevivência evitando repasses nos preços ao consumidor para que as receitas não recuem ainda mais. Isso inclui corte de pessoal, menores volumes de produção, menor consumo de energia e por aí vai o efeito bola de neve que levará o PIB à retração e tem provocado o cenário de deflação.

Do lado fiscal, os estímulos do governo que tanto preocupam o Bacen têm se mostrado insuficientes para reverter o quadro ou melhorar as expectativas. Os tais R$ 600 não chegaram nas mãos de muitos que precisam do auxílio, o adiamento dos impostos são apenas um empurrar o problema com a barriga, e as linhas de empréstimos ficam empoçadas sem chegar às mãos dos empresários que precisam.

Os juros baixos com inflação no centro da meta podem ser motivo de comemoração para um país que por décadas sofreu com o dragão inflacionário e todas as mazelas trazidas por ele. O problema são as causas que levaram a este cenário. É preferível viver com juros mais altos e crescimento econômico.

Ana Borges
Colunista.

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